Texto
. Que pelo ‘calcanhar’ seja entendido o ínfimo natural ou o corpóreo, não se pode sabe-lo a menos que se saiba de que maneira os antiquíssimos consideravam as coisas que estão no homem. As suas coisas celestes e espirituais eles referiam à cabeça e à face; as que existiam por elas, como a caridade e a misericórdia, referiam ao peito; mas as naturais, aos pés, e as naturais mais inferiores à planta dos pés; as naturais ínfimas e as corpóreas, ao calcanhar. Eles não só as referiam a essas partes, mas também as chamavam assim. As coisas ínfimas da razão ou as dos conhecimentos foram também entendidas pelas coisas que Jacó profetizou a respeito de Dã:
“Dã será uma serpente no caminho, uma áspide na vereda, que morde os calcanhares do cavalo, e seu cavaleiro cai por detrás” (Gn. 49:17).
E pelas que estão em Davi:
“A iniquidade de meus calcanhares me cercou” (Sl. 49:5).
Semelhantemente ao que se diz de Jacó, quando saiu [do útero],
“Que sua mão segurou o calcanhar de Esaú, e daí se chamou Jacó” (Gn. 25:26).
O nome ‘Jacó’ vem de ‘calcanhar’, porque a Igreja Judaica, significada por ‘Jacó’ feriria o calcanhar. A serpente pode ferir apenas as coisas ínfimas naturais, mas não pode — exceto se for uma espécie de víbora — ferir as coisas naturais interiores no homem, ainda menos, as espirituais, e muito menos ainda, as celestes; essas o Senhor conserva e as oculta sem que o homem o saiba. As coisas que o Senhor oculta se chamam ‘relíquias’ na Palavra. Mas de que maneira a ‘serpente’ destruiu essa parte ínfima nos antediluvianos pelo sensual e pelo amor de si; de que maneira a destruiu nos judeus pelas coisas sensuais, pelas tradições e frivolidades, e pelo amor de si e do mundo; e de que maneira hoje destrói e tem destruído pelas coisas sensuais, pelas coisas do conhecimento e filosóficas, e ao mesmo tempo pelos mesmos amores, na sequência se dirá, pela Divina Misericórdia do Senhor.