. Que ‘a voz dos sangues’ signifique a violência praticada contra a caridade, vê-se por muitas passagens na Palavra, onde a ‘voz’ é tomada por tudo que acusa, e ‘sangue’ por todo pecado, principalmente pelo ódio, pois aquele que tem ódio ao irmão em seu coração o mata, como o Senhor o ensina: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, mas quem matar será réu de juízo; Eu porém vos digo que quem se encolerizar contra seu irmão temerariamente será réu de juízo; e quem disser ao seu irmão: Raka; será réu de sinédrio; e quem lhe disser: Tolo; será réu da gehena de fogo” (Mt. 5:21, 22). Por estas palavras se entendem os graus do ódio. O ódio é contrário à caridade, e mata, se não com a mão, ao menos em intenção, e de todo modo possível. São apenas os vínculos externos que impedem de se fazê-lo com a mão; por isso todo ódio é de sangue, como em Jeremias: “...Em que fazes bom o teu caminho para buscares o amor?... Até nas tuas orlas se achou o sangue das almas dos pobres inocentes” (2:33, 34). [2] E porque o ódio é o ‘sangue’, toda iniquidade é sangue, pois o ódio é a origem de toda iniquidade; como em Oseias: “...O perjurar, e o mentir, e o matar, e o furtar, e o adulterar. Cometem homicídios; e os sangues contra os sangues. Por causa disso a terra lamentará, e definharão todos os que nela habitam” (4:2, 3); e em Ezequiel: “Não julgarás a cidade de sangues, e não lhe farás conhecer todas as suas abominações?... Cidade que derrama o sangue no meio dela... pelo teu sangue, que derramaste, tu te tornaste culpada”... (22:2-4, 6, 9); onde se trata da falta de compaixão. No mesmo: “A terra está cheia do juízo dos sangues, e a cidade está cheia de violência” (Ez. 7:23); e em Jeremias: “Por causa dos pecados dos profetas de Jerusalém, das iniquidades dos seus sacerdotes, os que derramam no meio dela o sangue dos justos, vagam cegos nas praças, foram contaminados com o sangue” (Lm. 4:13, 14); em Isaías: “Quando o Senhor tiver lavado as impurezas das filhas de Sião, e limpado os sangues de Jerusalém do meio dela, com espírito de justiça e com espírito de inflamação” (4:4): no mesmo: “As palmas de vossas mãos foram contaminadas no sangue, e os vossos dedos na iniquidade” (Is. 59:3); em Ezequiel: “Passei por ti, e te vi pisada em teus sangues, e te disse: Em teus sangues vive; e te disse: Em teus sangues vive” (16:6, 22); onde se trata das abominações de Jerusalém, que são nomeadas ‘sangues’. A falta de compaixão e o ódio dos últimos tempos são descritos também pelo ‘sangue’ no Apocalipse (16:3, 4). Se dizem ‘sangues’, no plural, porque todas as coisas iníquas e abomináveis brotam do ódio, assim como todas as coisas boas e santas brotam do amor. Pois aquele que tem ódio ao próximo, matá-lo-ia se o pudesse, e o faria de qualquer maneira possível. Isto é fazer-lhe violência, a qual é aqui propriamente significada pela ‘voz dos sangues’.