Texto
. Mas é extremamente difícil dizer, de sorte a ser compreendido, o que é o entendimento do vero e a vontade do bem num sentido próprio, pelo fato de que tudo o que o homem pensa, acredita ser do entendimento, porque assim o chama; e tudo o que ele deseja, acredita ser da vontade, porque assim o chama. E torna-se mais difícil dizer de modo a ser compreendido, porque hoje a maioria também ignora que o intelectual é distinto do voluntário, pois que quando pensam algo, dizem que o querem, e quando querem algo, dizem que pensam; assim, também pela razão de chamarem as coisas assim. Além disso, outra causa por que dificilmente compreendem é porque estão nos corpóreos somente, ou, a vida deles está nos extremos.
[2] Por essas causas, ignoram também que exista em cada homem uma espécie de interior, e algo ainda mais interior, e até um íntimo, e que o seu corpóreo e sensual sejam o extremo, as cobiças e as coisas da memória sejam interiores, as afeições e as coisas racionais sejam ainda mais interiores, e a vontade do bem e o entendimento do vero sejam os íntimos. E estas coisas são tão distintas entre si que nada existe de mais distinto. O homem corpóreo, de todas estas coisas, faz uma só e as confunde; a causa disso é que ele acredita que, quando seu corpóreo morre, todas as coisas devem também morrer, quando, todavia, é então que ele começa pela primeira vez a viver e, realmente, pelos interiores que sucedem em sua ordem. Se os interiores não fossem assim distintos, e se sucedessem, os homens na outra vida nunca teriam podido ser espíritos, ser espíritos angélicos e ser anjos, que são distintos assim, segundo os interiores. Daí haver três céus distintíssimos entre si. Por estas explicações pode-se agora ver suficientemente o que é o entendimento do vero e a vontade do bem num sentido próprio, e que só podem ser atribuídos ao homem celeste, ou aos anjos do terceiro céu.