Texto
. Que os bens e veros sejam a genuína comida do homem, qualquer um pode ver. Com efeito, o que é destituído desses não tem vida, mas é morto. A comida de que sua alma se nutre, quando é morto, são os prazeres do mal e os deleites dos falsos, os quais são a comida da morte; e, também, se nutre das coisas corpóreas, mundanas e naturais, que não têm vida alguma em si. Ademais, um tal homem nem sabe o que é a comida espiritual e celeste; tanto é que, todas as vezes em que se nomeia ‘comida’ ou ‘pão’ na Palavra, pensa que alguma comida corpórea é significada. Assim como na Oração do Senhor: “Dá-nos o pão de cada dia” pensa somente que é o alimento do corpo. E os que estendem as ideias para além daí dizem ser também as outras coisas necessárias para o corpo, tal como as vestes, os meios de subsistência e coisas semelhantes. E mesmo disputam energicamente que nenhuma outra comida é entendida, quando, todavia, podem ver claramente que as coisas precedentes e as seguintes envolvem somente as coisas celestes e espirituais e tratam do reino do Senhor; e podem também saber que a Palavra do Senhor é celeste e espiritual.
[2] Por aí e por outras coisas semelhantes pode-se ver muito bem o quanto o homem de hoje é corpóreo, e que, como os judeus, nada quer compreender do que se diz na Palavra, senão no sentido material e mais grosseiro. O Senhor mesmo disse claramente o que é significado em Sua Palavra pela ‘comida’ e pelo ‘pão’, dos quais assim se diz em João:
“Jesus disse: Trabalhai pela comida, não a que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dá” (João 6:27);
a respeito do ‘pão’, no mesmo:
“Vossos pais comeram maná no deserto, e morreram. Este é o pão que do céu desceu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o Pão vivo que desce do céu, se alguém comer deste pão, viverá eternamente” (João 6:49, 51, 58);
mas hoje há pessoas semelhantes que, ouvindo essas palavras, disseram:
“Duro é este discurso; quem o pode ouvir? E tornaram atrás e já não andavam com Ele” (João 6:60, 66);
a estes o Senhor disse:
“As palavras que Eu vos falo são espírito e são vida” (João 6:63).
[3] Acontece semelhantemente a respeito da ‘água’, que significa as coisas espirituais da fé, da qual o Senhor assim disse em João:
“Jesus disse: Todo aquele que bebe dessa água, terá sede de novo; mas aquele que bebe da água que Eu lhe der, não terá sede eternamente; mas a água que Eu lhe der, se tornará nele uma fonte de águas que jorra para a vida eterna” (João 4:13, 14);
mas hoje há aqueles, como a mulher com quem o Senhor falou na fonte, que respondeu:
“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem venha aqui para tirá-la” (João 4:15).
[4] Que a ‘comida’, na Palavra, não significa outra coisa que a comida espiritual e celeste, que é a fé no Senhor e o amor, vê-se por muitas passagens na Palavra, como em Jeremias:
“O inimigo estendeu a sua mão sobre todas as coisas desejáveis de Jerusalém, porque viu que as nações vieram aos seus santuários, a cujo respeito ordenaste: Não virão na congregação contigo; todo o povo está gemendo, buscando pão; deram suas coisas desejáveis por comida, para restaurarem a alma” (Lm. 1:10, 11).
Onde não se entende nenhum outro pão ou comida senão o que é espiritual, pois que se trata do santuário. No mesmo:
“Clamei aos meus amantes, eles me enganaram; meus sacerdotes e meus anciãos expiraram na cidade, porque buscavam comida para si, e para restaurarem a sua alma” (Lm. 1:19);
semelhantemente. Em Davi:
“todos eles te esperam, para dar sua comida em seu tempo; dá-lhes, eles a recolherem; abre a tua mão, enchem-se de bens” (Salmos 104:27-28);
em lugar, semelhantemente, da comida espiritual e celeste.
[5] Em Isaías:
“Todos os que tendem sede, ide às águas; e vós que não tendem prata, ide, comprai e comei; e ide, comprai, sem prata e sem preço, vinho e leite” (55:1);
onde o ‘vinho’ e o ‘leite’ estão no lugar da bebida espiritual e celeste. Não mesmo:
“Uma virgem conceberá e parirá um filho; e chamarás o Seu nome Immanuel; manteiga e mel comerá, para que saiba reprovar o mal e escolher o bem. Sucederá, por causa da abundância em produzir leite, comer-se-á manteiga, pois manteiga e mel comerá todo o remanescente no meio da terra” (Is. 7:14–15, 22);
aí, ‘comer mel e manteiga’ é o celeste espiritual; ‘restante’ está no lugar das relíquias, das quais se fala também Malaquias:
“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja comida em Minha casa” (3:10);
os ‘dízimos’ estão no lugar das relíquias; sobre a significação de ‘comida’, vide outras coisas, nos n. 56–58, 276.