. Que ‘quarenta dias e noites’ signifique a duração, mostrou-se acima, no vers. 4. Por ‘quarenta’, como se disse, é significada toda a duração da tentação, seja maior ou menor, e mesmo a tentação grave que é das coisas voluntárias. O homem adquire a vida para si por meio de contínuas volúpias e pelos amores do mundo e de si, por conseguinte, por meio de cobiças que daí continuamente procedem, de modo que sua vida nada é senão a vida disso. Essa vida não pode jamais concordar com a vida celeste, pois ninguém pode amar as coisas mundanas e as celestes ao mesmo tempo. Amar as coisas mundanas é olhar para baixo, e amar as celestes é olhar para cima. Ainda menos pode alguém amar a si e ao próximo ao mesmo tempo, e menos ainda amar ao Senhor. Quem se ama odeia a todos os que não o servem; assim, quem se ama está muito afastado do amor e da caridade celeste, que é amar ao próximo mais do que a si mesmo e ao Senhor sobre todas as coisas. Por aí se vê o quanto a vida do homem dista da vida celeste. Por isso, por meio das tentações o homem é regenerado pelo Senhor e dirigido até que concorde. Esta é a razão por que essa tentação é grave, pois toca a vida mesma do homem, assalta-a, destrói e transforma. Por isso também é descrita como ‘fontes do abismo que irromperam’ e ‘cataratas do céu que se abriram’.