Texto
. Visto que há inúmeros gêneros de ódios e de vinganças, e ainda mais inúmeras espécies, e um gênero não tem o mesmo inferno que outro e é, assim, impossível listar cada um deles em ordem, por isso é permitido relatar as coisas que foram vistas. Houve um que veio a mim e que parecia ser um nobre (eles apareceram a mim como na claridade do dia, e ainda mais claramente, mas perante a visão interna, porque, pela Divina Misericórdia do Senhor, foi-me concedido estar em contato com os espíritos). Esse, assim que chegou, simulava por meio de sinais, insinuando que tinha muitas coisas que queria me comunicar, interrogando se eu era cristão; respondi-lhe que era. Dizendo-se igualmente cristão, pediu que estivesse a sós comigo, para que os outros não ouvissem algo do que ia relatar, mas respondi-lhe que na outra vida não se pode estar só, como os homens creem nesta terra, e que muitos espíritos se acham presentes. Mas, chegando mais perto, subiu ao occipício, por trás; e então percebi que era um assassino. E, como estivesse ali, senti uma espécie de golpe traspassando o coração e logo depois no cérebro, golpe com o qual um homem facilmente morreria; como, porém, fui guardado pelo Senhor, de nada receei; que arte ele usou, eu não sei. Julgando que eu estivesse morto, disse aos companheiros que tinha acabado de vir de um homem, a quem matara assim, a saber, com um golpe mortal por trás, dizendo que era tão hábil nessa arte que o homem nada sabia antes de cair morto, sem pensar outra coisa senão que ele era inocente. Daí me foi dado saber que ele tinha saído recentemente da vida, onde tinha perpetrado essa crueldade. O castigo desses tais é horrendo; após terem sofrido os tormentos infernais durante séculos, sua face se torna detestável e monstruosíssima, de modo que não é mais uma face, mas uma coisa como estopa amarelada; assim se despojam de todo humano, e então cada um que os vê se assusta, pelo que vagam como feras em lugares sombrios.