. Existem os que externamente mostraram uma face e uma vida honestas, a tal ponto que ninguém podia suspeitar que não eram honestos; estudavam todo modo de assim aparecerem a fim de serem elevados em honras e de lucrarem sem a perda da reputação. Por isso não agem abertamente, mas por meio de outros; com artifícios dolosos espoliam os outros dos seus bens, sem se importarem se as famílias a quem espoliam perecem de fome, e eles mesmos praticariam o ato sem consciência alguma se isso não aparecesse diante do mundo. São, todavia, tais como se tivessem praticado o ato. São ladrões ocultos, e a espécie de seu ódio é conjunta a soberba, avidez de lucro, imisericórdia e dolo. Esses, na outra vida, querem ser inocentes, dizendo que nada fizeram de mal, porque nada foi revelado; e, para se mostrarem sem culpa, tiram as vestes e se apresentam nus, testificando assim a inocência. Quando são examinados, por cada uma das palavras e por cada uma das ideias do pensamento percebe-se completamente o que eles são, coisa que eles ignoram. Esses, na outra vida, sem consciência alguma, desejam matar os companheiros por qualquer ofensa; e também têm consigo um machado e um martelo na mão, e são vistos tendo consigo outro espírito, deitado, a quem eles ferem, mas não a ponto de derramar sangue, porque têm medo da morte. Tampouco podem lançar fora de sua mão esses instrumentos, o que, todavia, eles se esforçam com o maior empenho para fazê-lo, a fim de não serem vistos como tais e seus ânimos ferozes apareçam diante dos anjos e espíritos. Eles estão à meia distância, sob os pés, voltados para frente.