. Há as que viveram segundo as suas inclinações, ocuparam-se somente de si mesmas e do mundo, e puseram toda vida e prazer da vida no decoro externo, pelo que foram mais estimadas que as outras na sociedade civil. Assim, pelos atos e pelo hábito, adquiriram a habilidade de poder se insinuar nas cobiças e volúpias dos outros, simulando honestidade, mas com o fim de dominar. Daí a vida delas se tornou simulada e dolosa. Semelhantemente a outras, elas frequentaram igrejas, mas sem outro fim senão o de parecerem honestas e piedosas. E, além disso, foram privadas de consciência, inclinadíssimas a escândalos e adultérios, o quanto pudessem se ocultar. Na outra vida, essas pensam do mesmo modo; não sabem o que é consciência e riem dos que nomeiam a consciência. Elas entram em quaisquer afeições dos outros, simulando o que é honesto, piedoso, misericordioso e inocente, coisas que para elas são meios de enganar. E, todas as vezes que os vínculos externos lhes são tirados, precipitam-se nas coisas mais celeradas e obscenas. [2] São essas que, na outra vida, se tornam magas ou feiticeiras, dentre as quais algumas são chamadas sereias. Lá, apossam-se de artes desconhecidas no mundo. São como esponjas que se embebem de artifícios nefandos, e por um gênio tal que elas as exercem prontamente. Os artifícios desconhecidos no mundo, que elas ali aprendem, são o de poderem falar como se estivessem em outro lugar, de sorte que sua voz é ouvida como se fosse de bons espíritos falando de outro lugar; de poderem estar com muitos quase ao mesmo tempo, assim persuadindo os outros de que estão em muitos lugares; de falarem com muitos ao mesmo tempo e em vários lugares ao mesmo tempo; de poderem desviar as coisas que influem dos bons espíritos, até as que vêm dos espíritos angélicos, e logo pervertê-las em seu favor, de diversas maneiras; de induzirem semelhança dos outros, por ideias que elas captam e moldam; de inspirarem em qualquer um a afeição por elas, insinuando-se no estado de afeição dos outros; de desaparecerem subitamente da vista dos outros e escaparem sem serem vistas; de representarem diante dos espíritos uma chama branca ao redor da cabeça e isto diante de muitos, o que é um sinal angélico; de simularem inocência de diversos modos, mesmo representando crianças, às quais beijam. Elas também inspiram os outros, aos quais têm ódio, para que as matem, porque sabem que não podem morrer, e depois os acusam como homicidas e divulgam isso. [3] Elas excitaram da memória tudo de mal que eu pensei e pratiquei, e isto muito habilmente. Como eu estivesse dormindo, falaram com os outros como se fosse eu, para que os espíritos fossem persuadidos, e até coisas falsas e obscenas, além de muitas outras coisas. A natureza delas é tão persuasiva que nada é percebido que se possa pôr em dúvida; por isso as ideias delas não são comunicadas, como as de outros espíritos. Têm olhos como se fossem de serpentes, como se diz, tendo a visão e a ideia presentes em toda parte. Essas feiticeiras ou sereias são gravemente punidas, algumas na Gehenna, outras numa espécie de cúria, outras entre serpentes, outras por meio de dilaceramentos e várias colisões, com máxima dor e tormento. No decorrer do tempo, são dissociadas e se tornam como esqueletos, da cabeça aos pés. A continuação se segue no fim do capítulo. * * * * * * *