Texto
. Que ‘esperou ainda sete dias’ signifique o princípio do segundo estado de regeneração, pode-se ver pelo fato de ser descrito o tempo que é o intervalo entre o primeiro estado (de que se tratou nos versículos logo precedentes, 8 e 9) e este segundo (de que se trata aqui, nos vers. 10 e 11). Esse tempo, que é o intervalo, é expresso por ‘ter esperado’, a fim de os relatos ficarem historicamente ligados. Como se dá com o segundo estado da regeneração, pode-se ver de algum modo pelas coisas que foram ditas e mostradas a respeito do primeiro estado, que foi quando os veros da fé não podiam ainda lançar raiz, pelo fato de as falsidades o impedirem. Os veros da fé só começam a se enraizar quando o homem começa a reconhecer e crer; antes disso não estão enraizados. As coisas que o homem ouve da Palavra e conserva na memória não são senão a inseminação, mas a radicação nunca começa sem que o homem aceite e receba o bem da caridade. Todo vero da fé é enraizado pelo bem da fé, isto é, pelo bem da caridade. Isto se passa do mesmo modo que com a semente que é lançada na terra; enquanto ainda é a estação do inverno, ou quando a terra está fria, ela fica, de fato, ali, mas não cria raiz; mas tão logo o calor do sol, que ocorre na estação da primavera, aquece a terra, então a semente começa a criar raiz e, daí, a lança na terra. Ocorre semelhantemente com a semente espiritual que é implantada: ela nunca é radicada antes de o bem da caridade a aquecer, por assim dizer; então pela primeira vez ela cria em si a raiz que depois lança.
[2] Há três coisas no homem que andam juntas e se unem, a saber, o natural, o espiritual e o celeste. O seu natural não recebe vida senão do espiritual, o espiritual nunca a recebe senão do celeste, e o celeste a recebe somente do Senhor, que é a Vida mesma. Mas, para que essa ideia seja compreendida ainda mais plenamente, o natural é o receptáculo que recebe, ou o vaso em que o espiritual é inserido, e o espiritual é o receptáculo que recebe, ou o vaso em que é inserido o celeste. Assim, a vida vem do Senhor por meio das coisas celestes. Tal é o influxo. O celeste é todo bem da fé; no homem espiritual é o bem da caridade. O espiritual é o vero, que não se torna vero da fé a menos que nele esteja o bem da fé, ou o bem da caridade, no qual está a vida oriunda do Senhor. Para que se saiba ainda mais claramente como acontece com isso, o homem natural é o que faz a obra de caridade, seja com a mão ou com a boca, por conseguinte, pelos órgãos do corpo. Mas ele em si é morto, e não vive senão pelo espiritual que está na obra, e o espiritual não vive senão pelo celeste que vem do Senhor; daí é que se chama boa obra, pois nada é bom senão pelo Senhor.
[3] Como a coisa se passa assim, cada um pode ver que em toda obra da caridade, a obra mesma nada é senão um certo material, mas que é animada por derivar do vero da fé que está na obra. E, assim por diante, que o vero da fé não é senão algo que é inanimado, mas que é vivo por derivar do bem da fé, e que o bem da fé não é vivo senão pelo Senhor, somente, que é o Bem mesmo e a Vida mesma. Daí é evidente a razão pela qual os anjos celestes não querem ouvir falar de fé, ainda menos de obra (vide o n. 202), porque tanto a fé quanto a obra derivam do amor, e fazem a fé pelo amor, e a obra mesma da fé pelo amor, de modo que, para eles, tanto a obra quanto a fé desaparecem, e restam somente o amor e o bem daí, e no amor deles está o Senhor. Esses anjos, pelo fato de terem ideias tão celestes, são distintos dos anjos que se chamam espirituais; e o seu pensamento mesmo, e a linguagem daí, é muito mais incompreensível do que o pensamento e a linguagem dos anjos espirituais.