. Que ‘frio e calor’ signifique o estado do homem que é regenerado, que é tal quanto à recepção da fé e da caridade, e que ‘frio’ signifique nenhuma fé e nenhuma caridade, porém ‘calor’, caridade, vê-se pela significação de ‘frio e calor’ na Palavra, onde esses termos se atribuem ao que deve ser regenerado, ou ao regenerado, ou à igreja. E vê-se também pela ligação, a saber, das coisas que precedem e das que se seguem, pois se trata da igreja; no versículo precedente, que o homem não poderia mais se destruir assim; neste versículo, que sempre existirá alguma igreja, que a princípio é descrita como ela é quando se forma, ou quando o homem é regenerado para que se torne uma igreja, e, depois, do regenerado, qual ele é. Trata-se, assim, de todo estado do homem da igreja. [2] Que tal seja o seu estado quando é regenerado, a saber, ‘frio e calor’, ou, nenhuma fé e caridade e, depois, fé e caridade, não se pode ver senão pela experiência e, de fato, pela reflexão unida à experiência. E visto que são poucos os que são regenerados, e, entre os que são regenerados, poucos são os que refletem, ou aos quais é dado refletir sobre o estado de sua regeneração, é permitido dizê-lo em poucas palavras. Quando o homem é regenerado, ele recebe vida do Senhor, porque antes dificilmente se pode dizer que vivesse. A vida do mundo e do corpo não é vida, mas a vida celeste e espiritual, unicamente, é vida. Pela regeneração, o homem recebe do Senhor a vida mesma, e como antes não teve vida alguma, alternam-se nele nenhuma vida e vida mesma, isto é, nenhuma fé e caridade e alguma fé e caridade. Nenhuma fé e caridade é significada aqui pelo ‘frio’; alguma fé e caridade, pelo ‘calor’. [3] Isto ocorre assim: todas as vezes que o homem está em suas coisas corpóreas e mundanas, não há nenhuma fé e caridade, isto é, há o ‘frio’, porque então as coisas corpóreas e mundanas, por conseguinte, as que são de seu proprium, operam. Enquanto o homem estiver nelas, está ausente ou distante da fé e da caridade, de modo que nem pensa nas coisas celestes e espirituais. A razão disso é que as coisas celestes e as corpóreas nunca podem estar ao mesmo tempo no homem, pois a vontade do homem foi completamente destruída. Quando, porém, as coisas corpóreas do homem e as suas coisas voluntárias não operam, mas repousam, então o Senhor opera no homem por seus internos, e então ele está na fé e na caridade, o que se chama ‘calor’. Quando de novo volta ao corpo, está na frieza, e quando o corpo ou o que é do corpo repousa e é nulo, por assim dizer, ele está no calor, e assim alternadamente, pois a condição do homem é tal que nele as coisas celestes e espirituais não podem estar simultaneamente com suas coisas corpóreas e mundanas, mas se alternam. Estas são as coisas que acontecem em cada um que está sendo regenerado, e isso ocorre enquanto ele estiver no estado de regeneração, pois de outro modo o homem não pode ser regenerado, isto é, de morto tornar-se vivo, porque, como foi dito, a sua vontade foi completamente destruída; por isso ela foi completamente separada da nova vontade que ele recebe do Senhor, a qual pertence ao Senhor e não ao homem. Por aí se pode ver o que é significado aqui por ‘frio e calor’. [4] Que assim aconteça, qualquer regenerado pode saber por experiência, ou seja, quando está nas coisas corpóreas e mundanas, então está ausente e distante dos internos, de modo que não somente não pensa coisa alguma a respeito deles, mas, também, sente em si uma espécie de frio. Quando, porém, as coisas corpóreas e mundanas repousam, então está na fé e na caridade. Também pode saber por experiência que esses estados se alternam. Por isso, ainda, quando as coisas corpóreas e mundanas começam a abundar e querem dominar, ele entra em angústias e tentações até ser reduzido a um estado tal que o homem externo preste obediência ao interno, obediência que o externo nunca pode prestar a menos que esteja em repouso e seja como se nada fosse. A última posteridade da Antiquíssima Igreja não pôde ser regenerada porque, como foi dito, as coisas intelectuais e as voluntárias neles constituíam uma só mente. Por isso as coisas intelectuais não puderam ser separadas das voluntárias deles e, assim, estarem alternadamente, ora nas celestes e espirituais, ora nas corpóreas e mundanas, mas havia neles um frio contínuo nas coisas celestes e um calor contínuo nas cobiças, de modo que neles não pôde haver alternação alguma.