. Que ‘temor de vós e terror de vós’ signifique o domínio do homem interno, e que o ‘temor’ se refira aos males e ‘terror’ aos falsos, pode-se ver pelo estado do homem regenerado. O estado do homem antes de ser regenerado é que as cobiças e falsidades que são do homem externo predominam continuamente, vindo daí as lutas; e, quando foi regenerado, então o homem interno domina sobre o externo, isto é, sobre as suas cobiças e falsidades. Quando o homem interno domina, o homem então tem temor aos males e terror aos falsos, pois tanto os males quanto os falsos são contra a consciência, e ele tem horror de agir contra a consciência. [2] Não é, porém, o homem interno que teme os males e tem terror dos falsos, mas o externo. Por isso aqui se diz que ‘o temor de vós e o terror de vós estarão sobre toda besta e toda ave do céu’, isto é, sobre todas as cobiças, que são significadas pela ‘besta’, e sobre as falsidades, que são significadas pela ‘ave do céu’. Esse temor e esse terror parecem que são do homem, mas a coisa se passa assim: há em cada homem, como foi dito anteriormente, pelo menos dois anjos, pelos quais lhe é dada comunicação com o céu, e dois espíritos maus, pelos quais ele tem comunicação com o inferno. Quando os anjos dominam, o que acontece no homem regenerado, então os maus espíritos que estão presentes não ousam fazer coisa alguma contra o bem e o vero, pois então se acham presos; e quando tentam fazer algum mal ou falar algum falso, isto é, excitá-los, então imediatamente se acham numa espécie de temor e terror infernal. São esses temor e terror que são percebidos no homem em relação às coisas que são contra a consciência. Por isso, também, tão logo fala e faz algo contra a consciência, entra em tentação e em remorso de consciência, isto é, numa espécie de tormento infernal, por assim dizer. [3] No que concerne ao temor ser atribuído aos males e o terror aos falsos, a coisa é assim: os espíritos que estão no homem não temem tanto fazer os males e falar os falsos, porque o homem renasce pelos veros da fé e recebe a consciência, pelo que não se permite aos espíritos excitar os falsos. Com efeito, em cada um deles não há senão o mal, de modo que, como estão no mal, a natureza mesma deles é o mal e, daí, todo o esforço deles. E como estão no mal, e a própria vida deles consiste no mal, são escusados ao fazerem o mal quando estão em algum uso. Mas não lhes é permitido falar o falso, para que aprendam o que é o vero e assim, tanto quanto possível, serem corrigidos para servirem de algum uso vil. Sobre isto, porém, dir-se-ão muitas coisas na sequência, pela Divina Misericórdia do Senhor. No homem regenerado é semelhante, pois sua consciência é formada pelos veros da fé; daí a sua consciência é a consciência do que é reto. O mal mesmo da vida, para ele, é o falso, porque é contra o vero da fé. Era diferente no homem da Igreja Antiquíssima, que teve percepção; ele percebia o mal da vida como mal, e o falso da fé como falso.