Texto
. ‘Todo réptil que é vivo’. Que isto signifique todas as volúpias em que há o bem, que é o ‘vivo’, vê-se pela significação de ‘réptil’, de que se tratou anteriormente. Que os répteis39 aqui signifiquem todas as bestas e aves limpas qualquer um vê, pois é dito que são dadas por comida. Os ‘répteis’, no sentido próprio, são as coisas mais vis de todas as nomeadas em Levítico 11:23, 29, 30, e eram imundas. Mas, num sentido amplo, como aqui, são os animais que foram dados por comida, porém aqui chamados ‘répteis’, porque significam as volúpias. As afeições do homem são significadas na Palavra pelas ‘bestas limpas’, como foi dito, mas, como não são percebidas senão em suas volúpias, a ponto de o homem as chamar de volúpias, por isso são aqui chamadas de ‘répteis’.
[2] Há dois gêneros de volúpias, a saber, o das voluntárias e o das intelectuais. São, em geral, as volúpias da posse da terra e das riquezas; volúpias da honra e dos serviços na república; volúpias do amor conjugal e do amor para com as crianças e os filhos; volúpias da amizade e da conversa com os companheiros; volúpias de ler, de escrever, de saber, de se tornar sábio, e muitas outras. Há, também, as volúpias dos sentidos, como as da audição, em geral a volúpia da suavidade do canto e da música; a da visão, em geral a volúpia das diversas belezas, que são múltiplas; a do olfato, das suavidades dos odores; a do paladar, das doçuras e dos benefícios das comidas e bebidas; a do tato, das várias amenidades40. Esses gêneros de volúpia, como são sentidas no corpo, são chamadas ‘do corpo’; mas nenhuma volúpia existe no corpo a menos que exista e subsista por alguma afeição interior. E nunca existe alguma afeição interior senão por uma afeição ainda mais interior, na qual estão o uso e o fim.
[3] Enquanto vive no corpo, o homem não sente essas coisas interiores que vêm em ordem desde os íntimos, e a maioria das pessoas dificilmente sabe que elas existem, ainda menos que as volúpias venham daí, quando, todavia, nos externos não pode existir coisa alguma senão a partir dos interiores em ordem. As volúpias são apenas os últimos efeitos. As coisas interiores não são evidentes enquanto se vive no corpo, a não ser para aqueles que refletem. Elas se manifestam pela primeira vez na outra vida e, de fato, na ordem em que são elevadas pelo Senhor em direção ao céu. As afeições interiores com os seus prazeres se manifestam no mundo dos espíritos; as afeições mais interiores com as suas amenidades se manifestam no céu dos espíritos angélicos; e as afeições ainda mais interiores com as suas felicidades se manifestam no céu dos anjos, pois há três céus, cada um mais interior, perfeito e feliz do que o outro (vide n. 459 e 684). Elas assim se revelam em ordem e se apresentam a fim de serem percebidas na outra vida; mas, enquanto o homem vive no corpo, uma vez que se acha continuamente na ideia e no pensamento das coisas corpóreas, essas coisas interiores estão como que adormecidas, porque estão imersas nas corpóreas. No entanto, aquele que reflete pode ver que todas as volúpias são tais como as afeições interiores em ordem e destas recebem toda a sua essência e qualidade.
[4] Uma vez que as afeições interiores se apresentam em ordem nos extremos, ou no corpo, como volúpias, por isso elas são chamadas ‘répteis’, mas são somente corpóreas afetadas pelos internos, como qualquer um pode ver somente pela visão e suas volúpias. Se não houver a visão interior, o olho não pode ver. A visão do olho existe pela visão interior; por isso, após a vida do corpo, o homem pode igualmente ver, e muito melhor do que quando viveu no corpo, porém não as coisas mundanas e corpóreas, mas as coisas que há na outra vida. Os que na vida do corpo foram cegos, na outra vida veem como os que tiveram olhos de lince. Também por isso, quando o homem dorme, em seus sonhos vê igualmente, como quando em vigília. Pela visão interna me foi concedido ver as coisas que há na outra vida mais claramente do que as vejo no mundo, pelo que é evidente que a visão externa existe pela visão interior, e esta por uma visão ainda mais interior, e assim por diante. Dá-se de modo semelhante em relação a todos os outros sentidos e a toda volúpia.
[5] Em outras passagens na Palavra as volúpias são semelhantemente chamadas de ‘répteis’, e ali se distinguem também entre os répteis limpos e os imundos, isto é, entre as volúpias cujos prazeres são vivos ou celestes e as volúpias cujos prazeres são mortos ou infernais, como em Oseias:
“Firmarei com eles uma aliança naquele dia, com a fera do campo e com a ave dos céus, e com os répteis do húmus” (2:18);
onde ‘a fera do campo, a ave dos céus e os répteis’ significam as coisas que foram mencionadas, no homem, como se pode ver pelo fato de se tratar de uma nova igreja. Em Davi:
“Louvem JEHOVAH os céus e a terra, os mares e tudo o que rasteja neles” (Sl. 69:34);
‘os mares e o que rasteja neles’ não podem louvar a JEHOVAH, mas as coisas que são por eles significadas no homem, que são vivas, assim, pelo vivo que há nelas. No mesmo:
“Louvai JEHOVAH, fera e toda besta, réptil e ave de asa” (Sl. 148:10);
semelhantemente. Que pelos ‘répteis’ aqui não se entendam outras coisas senão as boas afeições de que vêm as volúpias, vê-se também daí, porque os répteis para eles eram imundos, como se verá na sequência.
[6] No mesmo:
“JEHOVAH, a terra está cheia de Tuas posses, este grande mar, e amplo de espaço; ali há o réptil e inumerável; ... todos olham para Ti, para lhes dar a sua comida em seu tempo; dá-lhes, eles [a] recolhem; abres a Tua mão, ficam saciados de bem” (Sl. 104:24, 25, 27, 28);
onde, no sentido interno, pelos ‘mares’ são significadas as coisas espirituais; pelos ‘répteis’, todas as coisas que daí vivem; a fruição é descrita como ‘dar-lhes a comida em seu tempo e ficarem saciados de bem’. Em Ezequiel:
“E sucederá que toda alma viva que rasteja, tudo o que vem ao rio, viverá, e haverá muitíssimo peixe, porque lá chegarão essas águas, e serão curadas, e viverá tudo aonde vier o rio” (47:9);
onde se trata das águas provenientes da nova Jerusalém; as ‘águas’ estão em lugar dos espirituais de origem celeste; ‘a alma viva que rasteja’ em lugar das afeições do bem e das volúpias daí, tanto as do corpo quanto as das coisas sensuais; que estas ‘vivam pelas águas’ ou pelos espirituais de origem celeste, vê-se claramente.
[7] Que também as volúpias impuras, que têm sua origem no proprium, portanto, de suas cobiças medonhas, sejam também chamadas de ‘répteis’, vê-se em Ezequiel:
“E entrei e vi, e eis toda forma de réptil e de besta, uma abominação; e todos os ídolos da casa de Israel na parede ao redor” (8:10);
onde a ‘forma de réptil’ significa as volúpias impuras cujos interiores são cobiças, e, destas, os interiores são ódios, vinganças, crueldades e adultérios. Tais são os ‘répteis’ ou os prazeres das volúpias provenientes do amor de si e do mundo, ou do proprium, que são os ídolos deles, porque os consideram prazeres, os amam, os têm como deuses e, assim, os adoram. Como esses répteis significavam essas coisas horrendas, também na igreja representativa eles eram tão imundos que a ninguém se permitia sequer tocá-los, e quem os tocasse ficava imundo, como se vê em Lv. 5:2; 11:31–32; 22:5–6.