. ‘Vos será por comida’. Que isto signifique o seu prazer, que eles fruiriam, pode-se ver pelo fato de que cada volúpia não somente afeta o homem, mas também o sustenta como comida. A volúpia sem o prazer não é volúpia, mas algo inanimado; do prazer ela deriva o fato de ser e chamar-se volúpia. Mas, qual é o prazer, tal é a volúpia. As coisas corpóreas e sensuais em si mesmas não passam de materiais, inanimadas e mortas, mas vivem pelos prazeres que vêm em ordem dos interiores. Por aí se vê que qual a vida dos interiores, tal é o prazer das volúpias, pois no prazer está a vida. O prazer no qual está o bem vindo do Senhor é o único prazer vivo, pois então vem da vida mesma do bem. Por isso aqui se diz ‘todo réptil, que é vivo, vos será por comida’, isto é, para fruição. Alguns acham que ninguém que quer ser feliz na outra vida deve viver em volúpias do corpo e das coisas sensuais, mas deve se abdicar de todas elas, que eles dizem ser corpóreas e mundanas, que afastam e impedem o homem da vida espiritual e celeste. Mas os que assim acham, e por isso espontaneamente se entregam a sofrimentos enquanto vivem no mundo, não estão informados de que maneira a coisa se passa. [2] Ninguém é proibido de fruir das volúpias do corpo e das coisas sensuais, a saber, as volúpias das posses de terra e de riquezas; as volúpias dos bens e dos ofícios na república; as volúpias do amor conjugal e do amor para com as crianças e os filhos; as volúpias da amizade e das conversas com companheiros; as volúpias do ouvido ou da suavidade do canto e da música; as volúpias da visão ou das belezas, que são múltiplas, como vestir-se com elegância, uma habitação decorada com utensílios, belos jardins e coisas semelhantes que vêm do prazer das harmonias; as volúpias do olfato ou das suavidades do odor; as volúpias do paladar ou das doçuras e dos benefícios das comidas e bebidas; e as volúpias do tato, pois são afeições extremas ou corpóreas oriundas de afeições inferiores, como foi dito. [3] Todas as afeições interiores que são vivas derivam seu prazer do bem e do vero, e o bem e o vero derivam seu prazer da caridade e da fé, portanto, do Senhor, assim, da Vida mesma, porque as afeições e volúpias que vêm daí são vivas. E como as afeições genuínas derivam daí sua origem, nunca são negadas a alguém. De fato, como daí derivam sua origem, o prazer delas excede indefinidamente o prazer que não vem daí, que é relativamente impuro. Por exemplo, a volúpia do amor conjugal, quando deriva sua origem do amor conjugal verdadeiro, excede indefinidamente a volúpia que não vem daí, e isto em tal medida que aqueles que estão no verdadeiro amor conjugal estão numa espécie de prazer e felicidade celeste, pois isto desce do céu, o que também foi declarado pelos que foram da Igreja Antiquíssima. Para eles, o prazer dos adultérios que os adúlteros sentem era tão abominável que ficavam horrorizados somente em pensar nisso. Daí se pode ver qual é o prazer que descende da verdadeira fonte de vida ou do Senhor. [4] Que as volúpias mencionadas acima nunca sejam negadas ao homem — e, de fato, tanto não são negadas que elas são pela primeira vez volúpias quando vêm de sua verdadeira origem — vê-se também pelo fato de que muitos dos que no mundo viveram no poder, na dignidade e na opulência e que tiveram todas as delícias em abundância, tanto as do corpo quanto as das coisas sensuais, estão entre os bem-aventurados e felizes no céu, e neles, agora, os prazeres interiores e felizes são vivos, porque estes tiveram sua origem nos bens da caridade e nos veros da fé no Senhor, e porque pela caridade e pela fé no Senhor eles consideraram todas as suas volúpias a partir do uso, que foi o propósito deles. O uso mesmo, para eles, foi o maior prazer, donde veio o prazer de suas delícias. Vide o que foi dito por experiência, n. 945.