. ‘Requererei a alma do homem’. Que isto seja vingar a profanação, vê-se pelas coisas que foram ditas no versículo precedente e pelas que são ditas neste versículo, porque se trata de comer sangue, pelo que é significada a profanação. Poucos sabem o que é profanação, e ainda menos que ela tenha sua punição na outra vida. A profanação é múltipla. Aquele que nega completamente as verdades da fé não profana, assim como as nações que vivem fora da igreja e fora das cognições. Profana, porém, o que conhece os veros da fé, e ainda mais o que os reconhece, traz na boca, prega e persuade os outros e, no entanto, vive nos ódios, nas vinganças, na crueldade, nas rapinas e nos adultérios, e se confirma em muitas coisas que reúne da Palavra, pervertendo-as e assim se imergindo nessas coisas horrendas. Esse é o que profana. São principalmente essas coisas que levam o homem à morte. Que levem à morte, pode-se ver pelo fato de que na outra vida as coisas santas e as profanas foram completamente separadas, as profanas no inferno e as santas no céu. Quando esse vem à outra vida, em cada uma das ideias de seu pensamento, semelhantemente ao que ocorreu na vida do corpo, as coisas profanas se aderem às santas, onde, então, nem uma ideia do que é santo pode ser produzida sem que esteja aderido o que é profano, conforme se vê como na claridade do dia, pois na outra vida se concede perceber as ideias de outrem. Assim, em cada coisa que ele pensa a profanação se manifesta, e como o céu tem horror à profanação, é impossível que ele não seja precipitado no inferno. [2] Dificilmente há alguém que saiba como se passa com as ideias, pois se acredita que é algo simples, mas em cada ideia do pensamento há coisas inumeráveis, conjuntas de diversas maneiras para que esteja em alguma forma e assim numa imagem figurada ao homem, que é inteiramente percebida e vista na outra vida. Seja, por exemplo, somente o seguinte: quando sobrevém a ideia de um lugar, seja uma região, seja uma cidade, seja uma casa, então a ideia e a imagem de tudo que aí a pessoa executou se apresenta ao mesmo tempo, e tudo é visto pelos espíritos e anjos. Ou, se for a ideia de uma pessoa de quem se teve ódio, então se apresenta ao mesmo tempo a ideia de tudo o que se pensou, falou e fez contra ela. Acontece de modo semelhante com as ideias de todas as coisas, que, quando se apresentam, todas e cada uma das coisas que a pessoa concebeu e gravou em si sobre aquela coisa se tornam evidentes. Por exemplo, quando é a ideia do casamento, então, se ela foi adúltera, todas as coisas imundas e obscenas do adultério, mesmo do pensamento, se apresentam. Dá-se de modo semelhante em relação às coisas que ela confirmou, seja pelas coisas dos sentidos, seja pelas coisas racionais, seja pela Palavra, e de que maneira ela adulterou e perverteu os veros da Palavra. [3] E, além disso, a ideia de uma coisa influi na ideia de outra e a colore, por assim dizer, como quando um pouquinho de [tinta] negra é jogado na água, donde o volume de água se escurece. Por isso, um espírito é conhecido por suas ideias, e — o que me admirou — em cada ideia dele há uma imagem ou efigie dele que, quando se apresenta à vista, é tão disforme que é horrível de se ver. Daí se pode ver qual é o estado daqueles que profanam as coisas santas e qual é a imagem deles na outra vida. Mas nunca se pode dizer que profanam as coisas santas aqueles que creem com simplicidade na Palavra, ainda que creiam que não são verdadeiras, pois na Palavra se fala segundo as aparências, a cujo respeito se vê no n. 589.