. ‘Porque à imagem de Deus fez o homem’. Que isto signifique a caridade, que é a imagem de Deus, é a consequência. No que precedeu há pouco tratou-se da caridade, que foi significada pelo ‘sangue’; e que ela não seria extinta foi significado por ‘não derramarem sangue’. Agora se segue, aqui, que ‘à imagem de Deus fez o homem’, pelo que se vê que a caridade é a imagem de Deus. Hoje, dificilmente alguém sabe o que é a imagem de Deus. Dizem que a imagem de Deus foi perdida no primeiro homem, a quem chamam de Adão, e dizem que nele houve a imagem de Deus, que eles afirmam ser alguma integridade que eles desconhecem. Havia, de fato, integridade, pois por Adão ou Homem se entende a Antiquíssima Igreja, que foi homem celeste e teve percepção como nenhuma igreja depois dela. Por isso ela foi também a semelhança do Senhor. A semelhança do Senhor significa o amor a Ele. [2] Depois que essa Igreja pereceu no decorrer do tempo, o Senhor criou então uma nova, que não era mais uma igreja celeste, mas uma igreja espiritual. Esta não foi semelhança, mas imagem do Senhor. A imagem significa o amor espiritual, isto é, o amor para com o próximo ou caridade, o que também foi mostrado anteriormente, nos n. 50 e 51. Que essa igreja tenha sido ‘imagem de Deus’ por causa do amor espiritual ou caridade, vê-se por este versículo. E que a caridade mesma seja a imagem do Senhor, vê-se pelo fato de se dizer ‘porque na imagem de Deus fez o homem’, a saber, que a caridade mesma o fez. Que a caridade seja a imagem de Deus, vê-se muito claramente pela essência mesma do amor ou da caridade. Nada, senão o amor e a caridade, pode fazer semelhança de alguém e imagem de alguém. A essência do amor e da caridade é que de dois se faça como se fosse um só. Quando um ama o outro como a si mesmo, e mais do que a si mesmo, então um vê o outro em si e vê a si mesmo no outro, o que qualquer um pode saber se somente prestar atenção ao amor ou àqueles que se amam mutuamente. A vontade de um é a do outro; são como que interiormente conjuntos, sendo distintos entre si somente quanto ao corpo. [3] O amor ao Senhor faz o homem ser um com o Senhor, isto é, uma ‘semelhança’; a caridade ou amor para com o próximo também o faz, mas uma ‘imagem’; imagem não é semelhança, mas à semelhança. Esse ‘um’ oriundo do amor, o Senhor mesmo descreve em João: “Oro para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, em Mim, e Eu em Ti, e também eles em Nós sejam um. ... A glória que Me deste, Eu lhes dei, para que sejam um, assim como Nós somos um, Eu neles e Tu em Mim” (17:21–23). Esse ‘um’ é a essa união mística em que alguns pensam, união essa que é somente pelo amor. No mesmo: “[Porque] Eu vivo, vós também vivereis; naquele dia conhecereis que Eu estou no Meu Pai, e vós em Mim, e Eu em vós. Quem tem os Meus preceitos e os faz, esse é o que Me ama. ... Se alguém Me amar, guardará Minha palavra, e Meu Pai o amará, e para ele viremos, e morada nele faremos” (Jo. 14:19–23), pelo que se vê que é o amor que conjunge, e que o Senhor tem morada naquele que O ama, como também no que ama o próximo, pois este amor é do Senhor. [4] Em geral, essa união que faz a semelhança e a imagem não pode ser vista tanto no gênero humano, mas no céu, onde todos os anjos são como se fossem um, pelo amor mútuo. Cada sociedade, que consiste em muitos, constitui como se fosse um só homem, e todas as sociedades juntamente, ou todo o céu, um só homem, que também é chamado Máximo Homem (vide n. 457 e 550). O céu todo é a semelhança do Senhor, pois o Senhor é o Todo em tudo deles. Cada sociedade é também uma semelhança, por conseguinte, cada anjo. Os anjos celestes são semelhanças, os anjos espirituais são imagens. O céu consiste em tantas semelhanças do Senhor quantos são os anjos, e isto somente pelo amor mútuo, em que um ama o outro mais do que a si mesmo (vide nos n. 548 e 549). Com efeito, a coisa se passa assim: Para que o céu geral ou inteiro seja semelhança, as partes ou cada um dos anjos devem ser semelhanças, ou imagens que tendem às semelhanças. A não ser que o geral consista em partes pelas semelhanças de si, não existe o geral que faça um. Por aí, bem como pela ideia [básica], pode ser visto o que faz a semelhança e a imagem de Deus, a saber, é o amor ao Senhor e o amor para com o próximo. Consequentemente, todo homem espiritual regenerado pelo amor ou caridade, que vem do Senhor, somente, é uma imagem d’Ele. E quem está na caridade pelo Senhor está na integridade. Dessa integridade dir-se-á na sequência, pela Divina Misericórdia do Senhor.