. Que ‘foi toda a terra um só lábio’ signifique que havia, em toda a parte, uma única doutrina no geral, é o que evidencia, na Palavra, a significação do ‘lábio’, de que se tratará em breve no que vai seguir. Neste versículo e por essas poucas palavras, descreve-se o estado da Igreja Antiga qual fora, a saber, que houve uma única doutrina no geral. Porém, no versículo seguinte, descreve-se como se começou a falsificar e adulterar; e em seguida (até o vers. 9), como a igreja se tornara inteiramente pervertida a ponto de não haver mais o culto interno. Logo depois, trata-se da segunda Igreja Antiga, que tinha começado desde Éber; e finalmente da terceira, que foi o início da Igreja Judaica, pois, depois do dilúvio houve sucessivamente três igrejas. [2] Quanto ao que diz respeito à primeira Antiga Igreja, que nela — visto que de tal modo se espalhou numa grande extensão pelo globo — ainda assim tenha havido “um só lábio” e “as palavras [eram] uma só”, isto é, tenha existido uma única doutrina no geral e no particular, quando, todavia, os cultos, tanto internos como externos, eram em toda a parte diferentes — como se mostrou no capítulo precedente, onde por cada nação que ali se nomeia é significado um doutrinal e um ritual diferente —, assim se têm as coisas: Há, no céu, inumeráveis sociedades, e todas diferentes entre si; mas, ainda assim, elas fazem um, pois todas são conduzidas como uma só pelo Senhor. (A respeito dessas, viu-se anteriormente os n. 457, 551, 684, 685, 690.) E se tem do mesmo modo que com o homem, no qual, ainda que haja tantas vísceras e tantas partes viscerais nessas vísceras, órgãos e membros, dos quais um age de diferente modo do que o outro, ainda assim todos e cada um são dirigidos como um só por uma só alma. Ou então, dá-se com isso como com o corpo no qual as diversas atividades das forças e dos movimentos são, contudo, dirigidas unicamente pelo movimento do coração e unicamente pelo movimento do pulmão, e fazem um só. Que essas sociedades possam assim agir em unidade, vem isso de que no céu há um influxo único, que é recebido por cada um segundo o seu gênio, que é um influxo de afeição que procede do Senhor, de Sua Misericórdia e Vida; e embora esse influxo seja único, entretanto, todas as coisas obedecem e se seguem como um só, e isso pelo amor mútuo, no qual estão os que vivem no céu. [3] É assim que sucedeu com a primeira Igreja Antiga: embora houvesse outros tantos cultos internos e externos, em geral, quanto às nações, em específico, quanto às famílias das nações, e em particular, quanto aos homens da igreja, ainda assim “havia para todos um só lábio” e “as palavras eram uma só”, isto é, tinham todos uma mesma doutrina no geral e no particular. Há uma mesma doutrina quando todos estão no amor mútuo, ou na caridade. O amor mútuo e caridade faz que todas as coisas sejam uma só, ainda que sejam variadas, pois de várias faz a unidade. Todos, seja quanto for o seu número (mesmo que de miríades e miríades), se estão na caridade, ou no amor mútuo, todos têm um único fim [ou propósito], a saber, o bem comum, o Reino do Senhor e o Senhor mesmo. As variedades dos doutrinais e dos cultos são, como se disse, como as variedades dos sentidos e das vísceras no homem, variedades que contribuem para perfeição do todo. Com efeito, o Senhor então, por meio da caridade, influi e opera de diversos modos, segundo o gênio de cada um, e dispõe assim todos e cada um na ordem, assim na terra como no céu; e assim, então, faz-se a vontade do Senhor, como o Senhor mesmo ensina, nas terras como [é] nos céus.