. Que ‘a terra não os sustentava para habitarem juntos’ signifique que as coisas que pertencem aos celestes internos não podiam estar ao mesmo tempo com aquelas, a saber, com as que aqui são significadas por Ló [assim se tem as coisas]: Abrão, como foi dito, representa o Senhor e, aqui, o Homem Interno do Senhor; enquanto Ló representa o Seu Externo e, aqui, as coisas que deviam ser separadas do Homem Externo e com as quais os Internos não podiam coabitar. Há no homem externo muitas coisas com as quais o homem interno pode coabitar, tais como as afeições do bem, assim como os prazeres e os deleites que obtêm a sua origem dessas afeições, porque essas coisas são os efeitos dos bens do homem interno, assim, de suas alegrias e de suas felicidades; e por serem efeitos, elas correspondem perfeitamente e pertencem então ao homem interno e não ao homem externo; porque o efeito, como se sabe, pertence não ao efeito, mas à causa eficiente. Por exemplo: a caridade que brilha sobre a face pertence não ao rosto, mas à caridade que está por dentro e que dá essa forma ao rosto e exibe esse efeito. Sucede o mesmo com a inocência nas criancinhas, esta mostra-se em sua fisionomia, em seus gestos e assim nas brincadeiras que elas têm entre si; ela pertence não à fisionomia nem aos outros gestos, mas à inocência que procede do Senhor e que influi por sua alma; assim, são efeitos. O mesmo se dá com todas as outras coisas. [2] A partir disso, vê-se que há, no homem externo, muitas coisas que podem coabitar ou concordar com o homem interno, mas também há muitas que não concordam ou com as quais o homem interno não pode coabitar; tais são todas aquelas que têm a sua origem no amor de si e no amor do mundo, pois tudo que vem daí visa a si próprio como fim e olha o mundo como fim. Com tais coisas não podem concordar as coisas celestes, que pertencem ao amor ao Senhor e ao amor para com o próximo; por isso que as coisas celestes consideram o Senhor como fim e consideram o Seu Reino e tudo que pertence ao Senhor e a Seu Reino como fins. Os fins do amor de si e do amor do mundo olham para fora ou para baixo, mas os fins do amor ao Senhor e do amor para com o próximo olham para dentro, para cima; daí se pode ver que há entre eles tanta discordância que nunca podem estar juntos. [3] Para saber o que faz a correspondência e a concordância do homem externo com o homem interno e o que faz a discordância, basta refletir sobre os fins que reinam, ou o que é o mesmo, sobre os amores que reinam, pois os amores são os fins, porque tudo que se ama é considerado como fim. Ver-se-á assim qual é a vida e qual ela deve ser depois da morte, pois segundo os fins, ou o que é a mesma coisa, segundo os amores que reinam, é que se forma a vida; a vida de todo homem nunca é a outra coisa. Se o que está em discordância com a vida eterna, isto é, com a vida espiritual e celeste, que é a vida eterna, não for afastado na vida do corpo, será necessário que o seja na outra vida; e se não pode ser afastado, é impossível que o homem possa deixar de ser infeliz pela eternidade. [4] Esses pormenores são dados agora para que se saiba que no homem externo há coisas que concordam com o homem interno e coisas que são discordantes, e que as que concordam não podem de modo algum estar com as que são discordantes. [Além disso,] que as que, no homem externo, concordam venham do homem interno, isto é, do Senhor pelo homem interno; isso se dá, como foi dito, como o rosto que brilha pela caridade, ou o rosto da caridade ou bem, como a inocência na fisionomia e gesto nas crianças; mas as coisas que são discordantes vêm do homem e de seu proprium. A partir destas explicações, pode-se saber o que é significado por estas palavras: “A terra não os sustentava para habitarem juntos”. Aqui, no sentido interno, se trata do Senhor e, porque se trata do Senhor, trata-se também de tudo que é à Sua semelhança e à Sua imagem, a saber, de Seu Reino, da igreja, de todo homem de Seu Reino ou da igreja; por isso é que são apresentadas aqui as coisas que estão nos homens. Quanto às que estavam no Senhor antes que, por Seu próprio poder, Ele tivesse vencido o mal, isto é, o diabo e o inferno, e que assim Se tivesse tornado celeste, Divino e JEHOVAH, também quanto à Essência Humana, elas se referem, de um modo atribuído, ao estado no qual Ele estava.