Texto
. ‘E o cananeu e o perizeu [estavam] então habitando na terra’; que signifique os males e os falsos no Homem Externo, isso é evidente pela significação do ‘cananeu’, que é o mal hereditário procedente da mãe no Homem Externo (ver o n. 1444); e pela significação do ‘perizeu’, que é o falso procedente desse mal de que se falará na continuação. Já se disse que o mal hereditário procedente da mãe tinha estado no Senhor em Seu Homem Externo (n. 1414 e 1444), daí se segue que o falso desse mal também aí está. O falso nasce do mal, mas o falso não pode nascer do mal antes que o homem tenha sido imbuído das coisas do conhecimento e das cognições; o mal não pode operar ou influir sobre outra coisa senão sobre as coisas do conhecimento e as cognições; assim, o mal que pertence à parte voluntária se muda em falso na parte intelectual, por isso esse falso também foi hereditário, pois nascera do hereditário; mas não era o falso que procede dos princípios do falso; mas ele estava no Homem Externo, e o Homem Interno pôde ver que ele era o falso.
[2] E como o mal hereditário procedente da mãe esteve no Senhor antes de Ele ter sido imbuído das coisas do conhecimento e das cognições, ou antes que Abrão tivesse peregrinado ao Egito, é dito no capítulo 12 (vers. 6) que ‘o cananeu estava na terra’, mas não se falou do ‘perizeu’; enquanto aqui, o Senhor, tendo sido imbuído das coisas do conhecimento e das cognições, se diz que ‘o cananeu e o perizeu habitavam na terra’, donde se vê que o ‘cananeu’ significa o mal, e o ‘perizeu’, o falso. Vê-se também que a menção que é feita do cananeu e do perizeu não se prende a nenhuma série histórica, pois não se trata deles no que precede nem no que segue; sucede também o mesmo no capítulo 12 (vers. 6), onde se faz menção ao cananeu. Daí resulta, evidentemente, que há aqui um arcano que só pode ser conhecido por meio do sentido interno.
[3] Qualquer um pode ficar admirado de ouvir dizer que o mal hereditário procedente da mãe tenha estado no Senhor, mas como aqui claramente se fala desse modo e no sentido interno se trata do Senhor, portanto, não é possível duvidar de que assim tenha sido. Com efeito, nenhum homem pode nascer de um outro homem sem trazer dele o mal; mas um é o mal hereditário que é obtido do pai e outro o que é obtido da mãe: o mal hereditário procedente do pai é interior e permanece pela eternidade, porque nunca pode ser desarraigado. O Senhor não teve esse mal, pois nasceu de JEHOVAH, o Pai, por consequência, Ele nasceu Divino (ou JEHOVAH) quanto aos internos; mas o mal hereditário procedente da mãe pertence ao Homem Externo, e ele esteve no Senhor; é esse mal que é chamado o ‘cananeu na terra’, e o falso que provém desse mal é chamado o ‘perizeu’. Assim, o Senhor nasceu como um outro homem e teve fraquezas como um outro homem.
[4] Que Ele tenha obtido da mãe o mal hereditário, é o que se vê claramente no fato de Ele ter sofrido tentações. Ninguém pode ser tentado se não tem em si mal algum. É o mal o que tenta no homem e é pelo mal que se é tentado. Também é certo que o Senhor foi tentado; que Ele padeceu graves tentações tais como nenhum homem poderia sustentar a décima milésima parte das que Ele sustentou só; e por Seu próprio poder Ele venceu o mal, ou o diabo, e o inferno inteiro. Fala-se assim dessas tentações em Lucas:
“Jesus ... foi conduzido em espírito ao deserto; quarenta dias foi tentado pelo diabo, de sorte que não comeu nesses dias; [...] porém, depois que acabou toda tentação, o diabo afastou-se d’Ele por um tempo; daí voltou [Jesus] na virtude do espírito à Galileia” (4:1, 2, 13, 14).
[5] E em Marcos:
“O espírito a Jesus impelindo, fê-Lo ir ao deserto; e esteve no deserto quarenta dias; sendo tentado, estava com as bestas” (1:12, 13);
onde pelas ‘bestas’ é significado o inferno. Além disso, Ele foi tentado até a morte ao ponto que os Seus suores eram gotas de sangue:
“E como estivesse em agonia, com mais instância orou; tornou-se, porém, o suor d’Ele como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lucas, 22:44).
[6] Nunca anjo algum pode ser tentado pelo diabo, porque, estando no Senhor, os maus espíritos não podem, mesmo de longe, se aproximar dele, pois são logo acometidos de horror e de terror; o inferno teria podido ainda muito menos se aproximar do Senhor se Ele tivesse nascido Divino, isto é, sem o mal aderente pela mãe.
[7] Não dizem também os pregadores, segundo a sua fórmula comum, que o Senhor até carregou as iniquidades e os males do gênero humano? Mas jamais Lhe teria sido possível fazer vir sobre Si as iniquidades e os males de outro modo que não fosse pela via hereditária. O Divino não é susceptível do mal; por isso é que, para que vencesse, pois, o mal por Suas próprias forças — o que nunca homem algum pôde, nem pode — e para assim Se tornar, Ele só, a Justiça, o Senhor quis nascer do mesmo modo que um outro homem. De outro modo, não teria sido necessário que Ele nascesse, por isso: que o Senhor teria podido tomar a Essência Humana sem nascimento, como Ele até a tinha tomado algumas vezes quando foi visto pela Antiquíssima Igreja, bem como pelos profetas. Mas Ele veio a este mundo para tomar sobre Si o mal contra o qual Ele devia combater e que Ele devia vencer, e para conjungir assim, em Si, a Essência Divina à Essência Humana.
[8] Contudo, não houve no Senhor mal algum em ato, ou próprio, como Ele mesmo o disse em João:
“Qual de vós Me convencerá de pecado?” (8:46).
Pelo que acaba de ser dito, vê-se bem claramente o que é significado pela disputa que houve entre os pastores do rebanho de Abrão e os pastores do rebanho de Ló; estas palavras precedem imediatamente, porque a causa dessa disputa é que o cananeu e o perizeu habitavam na terra.