ac 1577

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Que ‘não haja, peço, contenda entre mim e entre ti’ signifique que não deve haver entre um e outro discórdia alguma, é o que se pode ver pelo que já se disse. Quanto ao que diz respeito à concórdia, ou à união do homem interno com o externo, há mais arcanos do que é possível enunciar. O homem interno e o homem externo nunca foram unidos em homem algum, e eles não puderam ser unidos e não podem ser; eles tão somente o são no Senhor; também é por isso que ele veio ao mundo. Nos homens que foram regenerados parece que eles foram unidos, mas eles pertencem ao Senhor, pois as coisas que concordam pertencem ao Senhor, enquanto as que são discordantes pertencem ao homem.
[2] Há no homem interno duas coisas, a saber, o celeste e o espiritual; essas duas coisas constituem uma só quando o espiritual procede do celeste; ou, se quiserem, há no homem interno duas coisas, o bem e o vero, essas duas coisas constituem uma só quando o vero procede do bem; ou, se quiserem ainda, há no homem interno duas coisas, o amor e a fé, essas duas coisas constituem uma só quando a fé procede do amor; ou ainda, o que dá no mesmo, há no homem interno duas coisas, a vontade e o entendimento, essas duas constituem uma só quando o entendimento procede da vontade. Isso pode ainda ser entendido com mais evidência pelo exemplo que oferece o Sol, do qual procede a luz. Se nessa luz procedente do Sol há, como na primavera, calor e brilho, então por essa união tudo está em vegetação, tudo é vivo; se, ao contrário, como no inverno, não há calor na luz que procede do Sol, então, por essa falta de calor, tudo se entorpece, tudo morre.
[3] Vê-se bem, agora, o que constitui o homem interno e vê-se claramente também o que constitui o homem externo. No homem externo tudo é natural, porque o próprio homem externo é meramente o homem natural. Diz-se que o homem interno está unido ao homem externo quando o celeste espiritual do homem interno influi no natural do homem externo e faz que eles sejam um; daí o natural se torna até celeste e espiritual, mas celeste e espiritual de um grau inferior; ou o que é o mesmo, daí o homem externo se torna mesmo celeste e espiritual, mas celeste e espiritual exteriormente.
[4] O homem interno e o homem externo são absolutamente distintos, porque são as coisas celestes e as espirituais que afetam o homem interno, enquanto são as coisas naturais que afetam o homem externo; mas, apesar de distintos, a verdade é que eles são unidos quando o celeste espiritual do homem interno influi no natural do homem externo e o dispõe como sendo dele. Somente no Senhor o Homem Interno foi unido ao Homem Externo; mas não o foi em nenhum outro homem senão tanto quanto o Senhor o uniu e o une. É somente o amor e a caridade, ou o bem, que une. Ora, não há amor algum nem caridade alguma, isto é, nenhum bem que não venha do Senhor. Tal é a união que se deve entender pelas palavras de Abrão: “Não haja, peço-te, contenda entre mim e entre ti, e entre os meus pastores e os teus pastores, porque varões irmãos nós [somos]”.
[5] Se se diz ‘entre mim e entre ti’ e ‘entre os meus pastores e entre os teus pastores’, eis o motivo: como no Homem Interno há duas coisas, a saber, o celeste e o espiritual, coisas que, como foi dito, constituem somente uma coisa, o mesmo se dá no Homem Externo; o seu celeste é chamado bem natural, o seu espiritual é chamado vero natural. Estas palavras: “não haja contenda entre mim e entre ti”, referem-se ao bem, isto é, que o bem do Homem Interno não esteja em desunião com o bem do Homem Externo; e estas palavras: “não haja contenda entre os meus pastores e entre os teus pastores”, referem-se ao vero, isto é, que o vero do Homem Interno não esteja em desunião com o vero do Homem Externo.

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