Texto
. ‘E à tua semente até a eternidade’; que signifique aos que tivessem a fé n’Ele, vê-se pela significação da ‘semente’, que é a fé, e mesmo a fé da caridade, de que se tratou (n. 255, 256, 1025). Que o reino celeste seria dado à sua semente, isto é, aos que têm fé n’Ele, é o que é manifesto pelas palavras do Senhor mesmo em João:
“O Pai ama o Filho, e Lhe deu na mão todas as coisas; quem crê no Filho terá a vida eterna; quem, porém, não crê no Filho não verá a vida” (3:35, 36);
[2] e no mesmo:
“A todos que O receberam, deu-lhes poder para que fossem os filhos de Deus, aos que creem no nome d’Ele, que não nasceram de sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão” (João, 1:12,13).
Daí se vê o que seria a fé, ou crer no Senhor, naqueles que O recebem e creem n’Ele, a saber, não pela vontade da carne, nem pela vontade do varão; a ‘vontade da carne’ é o que é oposto ao amor e à caridade, pois é isso que é significado pela ‘carne’ (n. 999); e ‘a vontade do varão’ é o que é oposto à fé procedente do amor, ou da caridade, é isso que significa o ‘varão’. A vontade da carne e a vontade do varão são, com efeito, o que desune, enquanto o amor e a fé procedente do amor são o que une. Por isso os com os quais há o amor e a fé procedente do amor são os que nasceram de Deus; e, porque eles nasceram de Deus, eles são chamados ‘filhos de Deus’, e eles são a sua semente e aqueles aos quais é dado o reino celeste. É o que é significado neste versículo por estas palavras: “Toda a terra que tu vês, dá-la-ei a ti e à tua semente até a eternidade”.
[3] Todo homem, por pouco que queira refletir, deve ver que o reino celeste não pode ser dado aos que estão na fé sem a caridade, isto é, que dizem ter a fé e que têm ódio ao próximo. Não pode haver, com efeito, vida alguma em tal fé, pois ela faz a vida consistir em ódio, isto é, em inferno; pois o inferno só consiste em ódios, não nos ódios que o homem recebeu em herança, mas nos ódios que ele próprio adquiriu por sua vida em ato.