Texto
. Que ‘os restantes fugiram para um monte’ signifique não todos, é o que se vê sem necessidade de explicação, pois os que fugiram se tornaram os remanescentes. No sentido interno, trata-se das tentações que o Senhor sustentou na meninice. Na Palavra do Novo Testamento não se faz menção dessas tentações, fala-se somente das que Ele suportou no deserto ou logo depois que Ele veio do deserto, e, finalmente, da última tentação no Getsêmani e de suas consequências. Vê-se por muitas passagens da Palavra do Antigo Testamento que a vida do Senhor, desde a Sua primeira infância até a última hora de vida no mundo, foi uma contínua tentação e uma contínua vitória; e o que evidencia que a tentação não cessou com a que Ele teve no deserto é esta passagem em Lucas:
“Depois que o diabo acabou toda tentação, afastou-se d’Ele por um tempo” (4:13).
O que constata ainda é que Ele foi tentado até a morte na cruz, por conseguinte, até a última hora de Sua vida no mundo. Sendo assim, é evidente que toda a vida do Senhor no mundo, desde a meninice, foi uma contínua tentação e uma contínua vitória; a Sua última foi quando, na cruz, Ele pediu por Seus inimigos, por conseguinte, por todos que estavam no universo inteiro.
[2] Em uma palavra, nos Evangelistas, exceto a última tentação da vida do Senhor, só se fala de Sua tentação no deserto; houve muitas que não foram reveladas aos discípulos; as que foram desvendadas parecem, segundo o sentido da letra, tão leves que dificilmente elas parecem que são alguma coisa, porque o que Lhe foi dito e o que Ele respondeu não parece ser uma tentação, ainda que fosse de fato uma tentação mais grave que nunca a mente humana pode compreender nem crer. Ninguém pode saber o que é a tentação senão quem foi tentado. A tentação que é relatada em Mateus (4:1–11), Marcos (1:12, 13), Lucas (4:1–13), encerra sumariamente as tentações do Senhor, isto é, que por Seu amor para com todo o gênero humano Ele combateu contra os amores de si e do mundo de que estavam cheios os infernos.
[3] Toda tentação se faz contra o amor no qual está o homem; tal é o grau do amor, tal é o grau da tentação; se ela não se faz contra o amor, não há tentação. Destruir o amor de alguém é destruir a sua própria vida, porque o amor é a vida. A vida do Senhor foi o amor para com todo gênero humano, e esse amor foi até tão grande e tal qual era o puro Amor. Contra essa vida do Senhor foram admitidas, como foi dito, contínuas tentações, desde a meninice até a Sua última hora no mundo. O Amor que foi a vida mesma do Senhor, é significado por isso: “que
Ele teve fome e que o diabo Lhe disse: Se És o Filho de Deus, dize a esta pedra que ela se faça [em] pão; e que Jesus respondeu: Está escrito, que não de pão somente deve viver o homem, mas de toda palavra de Deus” (Lc. 4:2–4, Mt. 4:2–4).
[4] Que os combates contra o amor do mundo, ou contra todas as coisas que pertencem ao amor do mundo, sejam significados por:
“Levou-O o diabo a um monte alto e mostrou-Lhe todos os reinos da terra em um momento de tempo, e disse-Lhe: Darei a Ti todo este poder e a glória dele, porque me foi dado, e a quem eu quiser o dou; Tu, pois, se adorares diante de mim, serão para Ti todas [estas] coisas. Mas respondendo-lhe Jesus, disse: Vá para trás de Mim, satanás, pois está escrito: Adorarás ao Senhor Teu Deus, e só a Ele servirás (Lc. 4:5–8; Mt. 4:8–10)
[5] Que combateu contra o amor de si e contra todas as coisas que pertencem ao amor de si, é significado quando se diz:
“Levou-O o diabo à cidade santa, e O pôs sobre o pináculo do templo, e disse-Lhe: Se és o Filho de Deus, lança-Te Tu mesmo para baixo, pois está escrito: Aos Seus anjos dará ordem sobre Ti; e sobre as suas mãos levar-Te-ão, para que não se choque contra uma pedra o Teu pé. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus” (Mt. 4:5–7; Lc. 4:9, 10-12).
A vitória contínua é significada quando se diz depois das tentações:
“Os anjos se aproximaram e O serviram” (Mt. 4:11; Mc. 1:13).
[6] Em uma palavra, o Senhor, desde a primeira meninice até a última hora de Sua vida no mundo, foi atacado por todos os infernos, os quais foram continuamente submetidos, subjugados e vencidos por Ele; e isso, unicamente por Seu amor para com todo o gênero humano; e como esse amor era não humano mas Divino, e que, quão grande é o amor, tão grande é a tentação, pode-se ver qual foi a gravidade dos combates e quanta ferocidade houve da parte dos infernos. Sei, com certeza, que as coisas se passaram assim.