Texto
. ‘Distribuiu-se sobre eles [durante] a noite’; que signifique a sombra na qual estavam os bens e os veros aparentes, é o que se faz evidente pela significação da ‘noite’, que é um estado de sombra. Está-se em um estado de sombra quando se ignora se o bem e o vero são aparentes ou se o bem e o vero são genuínos. Qualquer um, quando está no bem e no vero aparentes, pensa que esse bem e esse vero são genuínos; é o mal e o falso, existindo no bem e no vero aparentes que produzem a sombra e fazem com que o bem e o vero pareçam genuínos. Os que estão na ignorância não podem saber outra coisa senão que o bem que eles fazem lhes pertence e que o vero que eles pensam lhes pertence. É semelhante ao que se dá com os que atribuem a si os bens que eles fazem e neles põem o mérito, não sabendo então que não são bens, ainda que pareçam tais, nem sabendo também que o seu proprium e o mérito de si, que eles põem nesses bens, são males e falsos que olham para a escuridão e para as trevas; assim sucede em muitos outros casos.
[2] Qual é o mal e qual é o falso e quanto mal e falso há encerrado neles, é o que não pode ser visto na vida do corpo como na outra vida; então, lá, essas coisas se oferecem à vista absolutamente como em uma luz clara. Contudo, dá-se coisa muito diversa se isso provém de uma ignorância não confirmada: esses males e esses falsos são então facilmente dissipados. Mas se o homem se confirma na opinião de que pode, por suas próprias forças, praticar o bem e resistir ao mal e que assim mereça a salvação, essa opinião permanece então adjunta e faz que o bem seja o mal e o vero seja o falso. Eis, porém, qual é a ordem: é que o homem faça o bem como de si próprio e não deva, portanto, cruzar os braços conforme este pensamento: “Se não posso fazer coisa alguma de bem por mim mesmo, devo esperar um influxo imediato e ficar assim em um estado passivo”. Isto é também contra a ordem. No entanto, o homem deve fazer o bem como por si próprio, mas quando ele reflete sobre o bem que ele faz ou que fez, ele deve pensar, reconhecer e crer que é o Senhor que operou isso nele.
[3] Se o homem ficar na inação, pensando como acaba de ser dito, ele não é mais então um sujeito em quem o Senhor pode operar. O Senhor não pode influir em alguém que se despoja de tudo aquilo em que as forças devem ser infusas. É como se alguém não quisesse aprender coisa alguma, exceto se as palavras lhe fossem sugeridas; ou como se alguém não quisesse fazer esforço para agir, salvo se a ação se realizasse como sem o concurso de sua vontade. Se tal acontecesse, ele não se indignaria ainda mais pelo fato de que ele seria como alguma coisa inanimada, quando a verdade é que aquilo que é animado pelo Senhor no homem é o que parece como vindo do homem? Por exemplo: ‘O homem não vive por si mesmo’; é isso uma verdade eterna; se, porém, não lhe parecesse viver por si mesmo, ele não poderia de modo algum viver.