. Que ‘eis que o filho da minha casa [será] o que herda de mim’ signifique que somente o externo estava no Reino do Senhor, é o que se faz evidente pela significação de ‘herdeiro’ e ‘herdar’, no sentindo interno. ‘Tornar-se herdeiro’, ou ‘herdar’, significa a vida eterna no Reino do Senhor. Todos que estão no Reino do Senhor são herdeiros, porque vivem da vida do Senhor (que é a vida do amor mútuo) e, por isso, eles também são chamados ‘filhos’; os filhos, ou os herdeiros do Senhor, são todos os que estão em Sua vida, porque a vida deles procede d’Ele e porque eles nasceram d’Ele, isto é, foram regenerados por Ele. Os que nascem de alguém são os seus herdeiros; o mesmo sucede a todos que são regenerados pelo Senhor, porque então eles recebem a vida do Senhor. [2] No Reino do Senhor há externos, interiores e internos: os bons espíritos, que estão no primeiro céu, são os externos; os espíritos angélicos, que estão no segundo céu, são os interiores; os anjos, que estão no terceiro céu, são os internos. Os que são externos não estão assim tão próximos, ou tão perto, como os que são internos. O Senhor, do [Seu] Divino Amor, ou da [Sua] Misericórdia, quer tê-los todos perto d’Ele; Ele não quer que eles se conservem fora, isto é, no primeiro céu, mas quer que estejam todos no terceiro, e se fosse possível, não só perto d’Ele, mas até n’Ele. Tal é o Amor Divino, ou Amor do Senhor. Ora, como a igreja então estava somente nos externos, o Senhor Se queixava aqui a esse respeito, dizendo: “Eis que o filho da minha casa [será] o meu herdeiro”; o que significa que não havia, por conseguinte, senão o externo em Seu Reino; mas Ele recebe logo depois uma consolação e uma promessa a respeito dos internos, como o veremos no versículo seguinte. O que é o externo da igreja, foi dito anteriormente (n. 1083, 1098, 1100, 1151, 1153). [3] O doutrinal mesmo não faz o externo e, menos ainda, faz o interno, como acima se disse; não é ele que distingue as igrejas na presença do Senhor, mas o que as distingue é a vida segundo os doutrinais; todos estes, quando [as igrejas] são verdadeiras, consideram a caridade como a sua base. Ora, para que serve o doutrinal senão para ensinar de que modo o homem deve ser? [4] No mundo cristão, são os doutrinais que distinguem as igrejas, e por esse modo se denominam católicos-romanos, luteranos, calvinistas ou reformados, e evangélicos, além de outras denominações. Que se chamem assim é segundo o doutrinal só, o que não aconteceria, certamente, se pelo principal da fé se tomasse o amor ao Senhor e a caridade para com o próximo; então essas seriam somente variedades das opiniões a respeito dos mistérios da fé, e os verdadeiros cristãos deixá-los-iam a cada um segundo a consciência, e diriam em seu coração que se é verdadeiramente cristão quando se vive como um cristão, ou seja, como o Senhor ensina. De todas essas diversas igrejas formar-se-ia assim uma só; todas as discussões, que só existem pelo doutrinal somente, dissipar-se-iam, até mesmo os ódios de uns contra os outros se dispersariam em um instante, e o Reino do Senhor se estabeleceria na terra. [5] A Igreja Antiga que existiu imediatamente depois do dilúvio (embora esparsa em muitos reinos) foi, entretanto, tal. De fato, seus membros diferiam muito entre si quanto aos doutrinais; mas, apesar disso, faziam da caridade o principal e consideravam o culto, não segundo os doutrinais que pertencem à fé, mas segundo a caridade que pertence à vida; é o que se entende por estas palavras: “Houve para todos um só lábio e as palavras [eram] uma só” (Gn. capítulo 11:1; ver n. 1285).