Texto
. ‘Pelo que conhecerei que a herdarei?’; que signifique uma tentação contra o amor do Senhor, que queria ter uma certeza, pode-se fazer ver isso na dúvida manifestada pelas próprias palavras. Quem está na tentação, este está na dúvida a respeito do fim; o fim é o amor contra o qual combatem os maus espíritos e os maus gênios, que dessa forma põem o fim na dúvida, e tanto mais na dúvida quanto aquele que é tentado mais ama. Se o fim que é amado não fosse posto na dúvida e até mesmo no desespero, não haveria tentação; a certeza do acontecimento precede a vitória e pertence à vitória.
[2] Como muito poucas pessoas sabem como se fazem as tentações, é permitido expor aqui em poucas palavras: Os maus espíritos nunca combatem senão contra as coisas que o homem ama; e eles combatem com tanto mais encarniçamento, quanto mais ele ama com ardor. São os maus gênios que combatem contra as coisas que pertencem à afeição do bem, e são os maus espíritos que combatem contra as que pertencem à afeição do vero. Logo e por pouco que eles notem o que o homem ama, e que eles percebam, como pelo olfato (o que lhes é agradável e caro), no mesmo instante é isso que eles atacam e procuram destruir; por conseguinte, destruir o homem todo, porque a sua vida consiste em seus amores; assim nada há para esses de mais agradável do que destruir todo o homem, e não desistem de seus esforços, mesmo que durassem pela eternidade, exceto se forem repelidos pelo Senhor. Os que estão repletos de malignidade e de embuste insinuam-se nos amores, lisonjeiam e, assim, introduzem-se no homem; e logo que nele estão assim introduzidos, estes tentam destruir os amores e, por conseguinte, matar o homem, e isso por mil meios que são incompreensíveis.
[3] Não combatem por esse meio em que há raciocínios contra os bens e os veros; tais combates são como nada para eles, pois mesmo que fossem mil vezes vencidos eles persistiriam sempre, tendo-se em vista que os raciocínios contra os bens e os veros nunca podem faltar. Mas eles pervertem os bens e os veros e os inflamam com um certo fogo de cobiça e de persuasão, de sorte que o homem outra coisa não sabe senão que ele está em uma semelhante cobiça e em uma semelhante persuasão. Ao mesmo tempo, eles inflamam esses bens e veros com um prazer que tiram do prazer de um homem por um outro objeto, e assim é que eles envenenam e infestam com a maior perfídia, e isso, com tanta habilidade, transferindo o prazer de um objeto a um outro, que, se o Senhor não auxiliasse, nunca o homem saberia outra coisa senão que isso é assim.
[4] Eles agem do mesmo modo contra as afeições dos veros, que constituem a consciência; logo que eles descobrem alguma coisa que pertence à consciência, seja qual for a natureza, eles formam para si mesmos uma afeição por meio dos falsos e das fraquezas que estão no homem; e por essas afeições, eles obscurecem a luz do vero e assim o pervertem; ou então eles introduzem a ansiedade e afligem. Além disso, eles mantêm obstinadamente o pensamento sobre uma só coisa e a enchem assim de fantasias, e envolvem secretamente as cobiças de fantasias. Eles têm ainda outros artifícios que são inúmeros e que é impossível descrever de modo que sejam compreendidos; só há poucas coisas, e só as mais gerais, que possam chegar à consciência do homem, são essas as coisas em que eles se deleitam maximamente destruir de preferência a outras.
[5] Por esta curta e até brevíssima explicação, pode-se ver quais são as tentações, ver que, em geral, quais são os amores, tais são as tentações; daí se pode ver ainda quais foram as tentações do Senhor, que foram as mais atrozes de todas as tentações, pois quanto maior o amor, maior é a atrocidade da tentação. O amor do Senhor, sendo a salvação de todo o gênero humano, foi o mais ardente de todos os amores; ele encerrava, portanto, no supremo grau, toda a afeição do bem e toda a afeição do vero. Todos os infernos combateram essas afeições pelos seus mais perversos dolos e por todos os seus venenos; mas, apesar de tudo, o Senhor venceu todos pelo Seu próprio poder. As vitórias têm isso consigo, é que os gênios e os espíritos malignos, depois de terem sido vencidos não se atrevem mais a empreender coisa alguma, porque sua vida consiste nisto, que eles possam destruir; mas quando percebem ser o homem tal que ele pode resistir, eles fogem ao primeiro ataque, como eles têm por costume fazer quando se aproximam da primeira entrada do céu: eles são logo tomados de horror e espanto e se precipitam para trás.