Texto
. ‘Uma ave [de rapina] desceu sobre os corpos’; que signifique os males e os falsos dos males, os quais queriam destruir, é o que se faz evidente pela significação da ‘ave [de rapina]’ , que é o falso. Na Palavra, as ‘aves’ significam o vero, como já se explicou; então, no sentido oposto, [as ‘aves de rapina’ significam] o falso, como sucede ordinariamente na Palavra para todas as significações das palavras, isto é, que elas existem em um e outro sentido; que as ‘aves’ signifiquem também o falso, é o que já foi demonstrado (n. 778, 866, 988). Cada um pode ver que esse fato envolve arcanos, pois de outro modo não mereceria ser relatado; também se disse qual é o arcano que ele significa, e é evidente, pela ligação das coisas no sentido interno, que ele diz respeito ao estado da igreja.
[2] Quando uma igreja é suscitada pelo Senhor, ela é pura no começo, e então um ama ao outro como irmão; é o que é conhecido pela história da Igreja Primitiva depois do Advento do Senhor: então, todos os filhos da igreja viviam como irmãos e até se chamavam irmãos, e eles se amavam mutuamente; mas depois de um decurso de tempo a caridade diminuiu e se dissipou. A caridade dissipando-se, os males tomaram o seu lugar e, com os males, introduziram-se também os falsos; daí os cismas e as heresias, que nunca existiriam se a caridade reinasse e vivesse. Então o cisma não seria chamado cisma, nem a heresia, heresia, mas se diria que é uma doutrina segundo a opinião de um tal, e se deixá-la-ia à consciência de cada um, contanto que ela não negasse os princípios, isto é, o Senhor, a vida eterna, a Palavra; e contanto que ela não fosse contra a Ordem Divina, isto é, contra os preceitos do Decálogo.
[3] Os males e os falsos dos males que tomam, na igreja, o lugar da caridade quando esta se dissipa são o que se entende aqui pela ave de rapina que Abrão enxotou, isto é, que o Senhor, representado aqui por Abrão, expulsou. Abrão nada expulsou, nem o mal nem o falso; Abrão não é conhecido no céu senão como um outro homem, não tendo absolutamente poder algum por si próprio, mas é o Senhor só que tem o poder; é também o que é dito por Isaías:
“Tu és o nosso Pai, porque Abrahão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; Tu, ó JEHOVAH, [és] o nosso Pai, nosso Redentor [é] o Teu nome desde o século” (63:16).