Texto
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Gênesis
Décimo sexto capítulo
Prefácio
NA Primeira Parte, foram explicados quinze capítulos do Gênesis e dito o que eles encerram no sentido interno, e adicionou-se a cada capítulo as maravilhas que a Divina Misericórdia do Senhor me concedeu ver e ouvir no mundo dos espíritos e no céu dos anjos; eis agora a Segunda Parte, na qual igualmente se adicionará tais maravilhas a cada capítulo. No fim deste capítulo (16º), tratar-se-á ‘das visões e dos sonhos’ e mesmo ‘das visões e sonhos proféticos que estão na Palavra’. Sei que poucas pessoas crerão que alguém possa ver o que existe na outra vida e, por conseguinte, relatar alguma coisa do estado das almas depois da morte, porque há poucos homens que creem na ressurreição, e os há mesmo muito menos entre os eruditos do que entre os simples; eles dizem bem de boca (por ser isso conforme a doutrina da fé) que eles ressuscitarão, mas a verdade é que de coração eles negam; alguns até confessam abertamente que eles creriam em tal, contanto que alguns dos mortos ressuscitassem, e se os vissem, ouvissem e tocassem. Mas se tal sucedesse, seria necessário que isso se fizesse para cada um deles, e, ainda assim, qualquer dentre eles o negaria em seu coração e não ficaria persuadido por esse meio; não obstante, influiriam milhares de objeções que o fariam persistir no negativo. Entretanto, alguns dizem que creem que ressuscitarão, mas no dia do Juízo Final, a respeito do qual eles formaram para si esta opinião: que então tudo que existe no mundo visível deve perecer; e como debalde se tem esperado esse dia já há tantos séculos, esses também estão na dúvida. Mas direi (no fim do capítulo 17) em poucas palavras, pela Divina Misericórdia do Senhor, o que se entende pelo Juízo Final de que se trata na Palavra. Pelo que acaba de ser dito, pode-se ver quais são hoje os homens no mundo cristão. Os saduceus, de quem se fala em Mateus (22:23 e seguintes), negaram abertamente a ressurreição, mas ainda faziam melhor que os de hoje, que dizem não negar; porque a ressurreição, como se disse, é ensinada na doutrina da fé, coisa que, entretanto, negam no fundo do coração, de modo que eles dizem o contrário do que creem e creem o contrário do que dizem. No entanto, para que não se confirme mais nessa falsa opinião, a Divina Misericórdia do Senhor concedeu-me estar em espírito na outra vida enquanto eu estou pelo corpo no mundo — porque o homem é um espírito revestido de um corpo —, e lá falar com almas que estavam ressuscitadas muito pouco tempo depois de seu falecimento, e até com quase todos que conheci na vida do corpo e que faleceram; conversar diariamente, desde muitos anos até agora, com os espíritos e os anjos, e lá ver coisas admiráveis que nunca entraram na ideia de ninguém; e isso, sem que haja ilusão. Como muitos dizem que crerão se alguém lhes vier da outra vida, ver-se-á agora se ficam persuadidos apesar da obstinação do coração. Posso afirmar que os que vêm do mundo cristão à outra vida, são os mais perversos de todos, tendo ódio ao próximo, à fé e negando o Senhor; porque na outra vida são os corações que falam e não as bocas. Além disso, eles são adúlteros mais do que todos os outros, e porque assim o céu começa a se afastar dos que estão no grêmio da igreja, pode-se ver que o último tempo dessa igreja se aproxima, e é disso que adquiri uma inteira certeza.
Quanto ao sentido interno da Palavra, para saber o que é e qual é, pode-se ver o que se disse e se expôs na Primeira Parte (n. 1-5, 64, 65, 66, 167, 605, 920, 937, 1143, 1224, 1404, 1405, 1408, 1409, 1502, 1540, 1659, 1756; mormente 1767-1777, e 1869-1870, 1783, 1807; e nesta parte, n. 1886-1889 inclusive).
Livro de Gênesis
Décimo sexto capítulo.
*1886. Neste capítulo, trata-se de Hagar e de Ismael; mas até agora ninguém soube o que é representado e significado no sentido interno por Hagar e por Ismael; e não foi possível saber, porque até agora o mundo (até mesmo o mundo erudito) considerou que os Históricos da Palavra são apenas históricos e não encerram coisa alguma mais profunda; e, ainda que tenham dito que cada iota tenha sido divinamente inspirado, a verdade é que por esse modo não entendem outra coisa senão que esses históricos foram revelados e algo de dogmático aplicável à doutrina da fé pode ser daí deduzido e ser útil aos que ensinam e aos que aprendem; e que, portanto, como foram divinamente inspirados, eles têm nas mentes uma força divina e operam o bem mais do que qualquer outro livro de história. Mas, considerados em si mesmos, os históricos pouco fazem para a correção do homem e nada fazem para a vida eterna, pois na outra vida os históricos são postos em esquecimento. Para que serviria, com efeito, conhecer a respeito da serva Hagar, a saber, que ela foi dada a Abrão por Sarai? conhecer a respeito de Ismael, e até de Abrão? Para entrar no céu e lá fruir da alegria, isto é, da vida eterna, as almas só necessitam conhecer as coisas que pertencem ao Senhor e as que procedem do Senhor. É por estas coisas que há uma Palavra, e são essas as coisas que estão contidas nos interiores da Palavra.