. Que ‘a minha injuria [está] sobre ti, eu dei a minha serva no teu seio’ signifique que ela não queria tomar sobre si a culpa, é o que se vê sem necessidade de explicação. Estas palavras, no sentido interno, encerram que o Senhor percebeu que esse primeiro Racional era tal que ele desprezava o vero intelectual, por isso Ele o censurou, porque o Senhor pensava a partir do vero intelectual (como se disse acima, n. 1904), e esse vero, estando acima do Racional, pôde perceber e ver aqui qual era o Racional, isto é, que o Racional considerava vil o vero intelectual. [2] Que o Senhor tenha podido perceber e ver, por Seu Homem mais Interior, qual era n’Ele o novo Racional, é o que se pode ver por esse motivo, que o interior possa perceber o que existe no exterior, ou, o que é o mesmo, no fato que o superior pode ver o que existe no inferior, mas não vice-versa. Aqueles que têm a consciência podem também fazer isso e têm o hábito de fazê-lo, porque, quando alguma coisa influi contra o vero da consciência no pensamento ou no esforço da vontade, não só eles o percebem, como também o censuram; eles vão até o ponto de se afligirem pelo fato de serem tais. Aqueles que têm a percepção o podem ainda mais, porque a percepção é interior no racional. Como o Senhor não teria podido, Ele Que teve a Percepção celeste Divina e o Pensamento procedente da afeição do Vero Intelectual, que está acima do Racional? Por isso Ele não pôde deixar de Se indignar, sabendo que nada de mal nem de falso vinha de Si mesmo, e que, da afeição do vero, Ele tinha Se aplicado com a maior solicitude em fazer com que o Racional fosse puro. A partir disso, é muito evidente que o Senhor não desprezava esse vero, mas que tinha percebido que o primeiro Racional n’Ele desprezava tal vero. [3] Não se pode explicar, de modo a ser compreendido, o que é ‘pensar a partir do vero intelectual’; é tanto mais difícil porque ninguém, senão o Senhor, pensou a partir dessa afeição e a partir desse vero; quem pensa daí está acima do céu angélico, porque os anjos do terceiro céu pensam não a partir do vero intelectual, mas sim do interior do racional; entretanto, quanto mais o Senhor uniu a Essência Humana à Essência Divina, tanto mais pensou a partir do Divino Bem mesmo, isto é, de JEHOVAH. [4] Os pais da Igreja Antiquíssima, que tiveram a percepção, pensaram a partir do racional interior; os pais da Igreja Antiga, que tiveram não a percepção mas a consciência, pensaram a partir do racional exterior, ou natural; mas todos os que são sem consciência jamais pensam a partir do racional, pois eles não têm o racional (ainda que pareça que o tenham), mas pensam a partir do natural sensual e do corporal. Se os que não têm a consciência não podem pensar pelo racional, é, assim como se disse, porque eles não têm o racional. O homem racional é aquele que pensa o bem e o vero da fé, nunca o que pensa contra esse bem e esse vero. Aqueles que pensam o mal e o falso são insensatos em seu pensamento, por isso o racional nunca pode ser predicado destes últimos.