. Que ‘volta para a tua senhora’ signifique que notou que devia fiar-Se não em Si, mas no vero interior e na afeição desse vero, é o que se vê pela significação da ‘senhora’, que é a afeição do vero interior; não é, porém, possível descrever o que é significado em particular por ‘Sarai’, por ‘Sarai esposa’ e por ‘Sarai senhora’, porque não é possível que ideia alguma o compreenda; essas significações estão mesmo (como já foi dito) acima de um entendimento angélico; aqui, é somente indicado como o Senhor pensou a respeito das aparências que, n’Ele, ocuparam o Seu primeiro Racional, isto é: Ele pensou que devia confiar não nessas aparências, mas nos Veros Divinos mesmos, por mais inacreditáveis que eles parecessem diante desse Racional. É o que sucede com todos os Veros Divinos: se se consultar o Racional sobre esses veros, nunca é possível crê-los, porque estão acima de tudo que ele pode aprender. Seja, por exemplo, este vero: que nenhum homem, nenhum espírito e nenhum anjo vive por si mesmo, mas o Senhor só é Quem vive por Si mesmo, e que a vida do homem, do espírito e do anjo seja uma aparência de vida neles; isto repugna o racional, que julga a partir das falácias; mas é entretanto o que se deve crer, porque é um vero. [2] É um Vero Divino que existam coisas ilimitáveis em cada expressão da Palavra (coisas que se mostram tão simples e rudes ao homem) e mesmo que existam até mais do que há em todo o céu, e que os arcanos que ali estão possam ser apresentados diante dos anjos, pelo Senhor, com uma perpétua variedade pela eternidade. Isto é tão inacreditável ao racional, que este jamais quer lhe dar alguma credibilidade [fidem], mas, ainda assim, é um vero. [3] É um Vero Divino, que nunca pessoa alguma é recompensada na outra vida pelas suas boas ações se nelas ele pôs o mérito e se as fez em vista do ganho, da honra e da reputação; e que ninguém nunca é punido por suas más ações se ele realmente as fez em virtude de um bom fim. São os fins que são examinados, as ações dependem deles; isso também não pode ser crido pelo racional, mas como é um vero, não se deve fiar no racional, que conclui não pelos internos, mas pelos externos. [4] É um Vero Divino, que aquele que deseja o menor regozijo, na outra vida, recebe do Senhor o maior, e quem deseja o maior só possui o menor; que no regozijo celeste não há jamais preeminência alguma de um sobre o outro, e que tanto quanto há de preeminência, outro tanto há de infernal; enfim, que na glória celeste não há a menor coisa da glória mundana; todas essas coisas repugnam também o racional, contudo, deve-se crê-las, porque são veros. [5] É ainda um Vero Divino que se é tanto mais sábio quanto mais se crê não ter sabedoria por si próprio; e que se é tanto mais insensato quanto mais se crê ter sabedoria por si próprio e quanto mais se atribui a si próprio a prudência. O racional nega também isso, porque ele pensa que o que não vem dele nada é. Há tais veros em número infindo; pelos que foram apresentados como simples exemplos, pode-se ver que não se deva fiar no racional, porque ele está nas falácias e nas aparências; por isso ele rejeita os veros quando estes foram despojados das falácias e das aparências, e os rejeita tanto mais quanto ele está mais no amor de si e nas cobiças desse amor, assim como nos raciocínios e nos princípios do falso sobre a fé. Deve-se ver também o que foi referido acima (n. 1911).