Texto
. Que ‘humilha-te sob as mãos dela’ signifique que Ele deve constranger-Se para Se pôr sob o Seu poder, é o que se vê sem necessidade de explicação. ‘Humilhar-se’ é expresso, na língua original, por uma palavra que significa ‘afligir’63 ; pode-se, por numerosas passagens da Palavra, convencer-se de que afligir-se, no sentido interno, é constranger-se. Na continuação falar-se-á da significação dessa palavra. Que o homem deva se constranger a fazer o bem, a obedecer às coisas que foram mandadas pelo Senhor e a pronunciar os veros, o que faz para que se humilhe sob as mãos do Senhor, ou para que se submeta ao poder do bem e vero Divino, isto envolve arcanos demasiadamente numerosos para que se possa explicar em poucas palavras.
[2] Há alguns espíritos que, quando viveram no mundo, tendo ouvido dizer que todo bem vem do Senhor e que o homem por si mesmo não pode fazer bem algum, tiveram por princípio não se constrangerem em coisa alguma, mas se entregaram à negligência, pensando que, já que assim sucede, todo esforço seria inútil. Por essa razão eles esperavam o influxo imediato no esforço de sua vontade e não se constrangiam a fazer bem algum; e isso ia mesmo ao ponto que quando se introduzia neles algum mal, não sentindo resistência do interior, eles se entregavam a esse mal, pensando que ele devia lhes ser permitido, desde que o interior se calava. Mas tais são esses espíritos que eles existem como se não tivessem proprium, de sorte que eles não podem tomar determinação alguma; por isso eles estão no número dos mais inúteis, pois se deixam conduzir igualmente pelos maus e pelos bons, e muito se dispõem aos maus.
[3] Ao contrário, aqueles que se constrangeram para evitar o mal e o falso, ainda que a princípio eles tenham pensado que isto era por si mesmos, ou por seu próprio poder, mas na continuação foram instruídos que os seus esforços, e até o que havia de menor em seus esforços, vinha do Senhor; esses, na outra vida, não podem ser conduzidos pelos maus espíritos, mas se acham entre os bem-aventurados. Pelo que acaba de ser dito, pode-se ver que o homem deve constranger-se a fazer o bem e a dizer o vero. O arcano que aqui está oculto, é que o homem é dessa forma dotado pelo Senhor de um proprium celeste; o ‘proprium celeste’ do homem é formado no esforço de seu pensamento; se ele não obtiver esse esforço ‘constrangendo-se a si próprio’ como aparece, ele nunca o conseguirá não se constrangendo.
[4] Para que esse arcano fique bem claro, direi como a coisa se passa: Em todo constrangimento para o bem, há uma sorte de livre, o homem não percebe isso assim quando ele está no constrangimento, mas é certo que esse livre existe nele; por exemplo, se alguém quiser se expor aos perigos da morte para um certo fim ou se alguém quiser sofrer dores corporais para alcançar a saúde, há nessas determinações um voluntário e, por conseguinte, uma sorte de livre a partir do qual ele age, ainda que os perigos e as dores, quando ele os experimenta, lhe tirem a percepção do voluntário, ou do livre. O mesmo sucede nos que se constrangem a fazer o bem; dentro deles há um voluntário, portanto, um livre pelo qual e por causa do qual eles se constrangem, a saber, por causa da obediência aos preceitos que o Senhor ordenou e por causa da salvação de sua alma depois da morte, motivos em cujo interior estão encerrados outros que o homem ignora, isto é, que ele se constrange ainda por causa do Reino do Senhor e muito mais por causa do Senhor mesmo.
[5] Isso se efetua sobretudo nas tentações, nas quais, quando o homem se constrange contra o mal e o falso que são insinuados e sugeridos pelos maus espíritos, há mais do livre do que jamais existiu em algum outro estado fora das tentações. Embora o homem não possa então compreender isso, há um livre interior pelo qual ele quer subjugar o mal, e ele é tão forte que equivale à violência e à forca do mal que ele combate, de outro modo ele nunca combateria. Esse livre existe pelo Senhor, Que o insinua na consciência do homem e faz que, por meio dele, ele vença o mal como se fosse por si próprio. O homem, por meio desse livre, recebe um proprium no qual o Senhor pode operar o bem; sem o proprium adquirido, isto é, concedido por meio do livre, nenhum homem pode ser reformado, porque ele não pode receber uma nova vontade, que é a consciência. O livre assim concedido é o plano mesmo no qual há o influxo do bem e vero desde o Senhor; daí vem que aqueles que nas tentações não resistem a partir desse voluntário, ou do livre, nelas sucumbem.
[6] Em todo o livre há a vida do homem, porque há o seu amor; tudo que o homem faz por amor lhe parece livre; entretanto, nesse livre, quando o homem se constrange para fugir do mal e do falso e para fazer o bem, há o amor celeste que então o Senhor insinua, e por meio do qual Ele cria o proprium dele; por isso é que o Senhor quer que esse proprium se mostre ao homem como se ele lhe pertencesse, ainda que não lhe pertença. Esse proprium que ele recebe assim por um constrangimento aparente na vida do corpo, o Senhor na outra vida o enche de deleites e de felicidades infindas. Estes são também iluminados gradualmente e até confirmados nessa verdade, que eles em nada se constrangeram por si próprios, mas que o que havia até de menor em um esforço de uma vontade viera do Senhor, e que se isso lhes tivesse parecido vir de si próprios, era para que o Senhor lhes desse um novo voluntário como lhes pertencendo, e que, assim, a vida do amor celeste lhes fosse apropriada. Com efeito, o Senhor quer comunicar a cada um o que é d’Ele e, por conseguinte, o celeste, de modo que apareça como pertencendo à pessoa a que Ele o comunica e também como nela, embora não pertença a ela. Os anjos estão em um semelhante proprium e fruem tanto mais o prazer e a felicidade desse proprium quanto mais eles têm uma convicção mais íntima deste vero: que é do Senhor que procede todo bem e vero.
[7] Quanto aos que desprezam e rejeitam todo bem e todo vero e nada querem crer que repugne as suas cobiças e os seus raciocínios, eles não podem se constranger e, assim, eles não podem receber esse proprium da consciência, ou esse novo voluntário. Pelo que acaba de ser dito, é ainda evidente que se constranger não é ser constrangido, porque do ser constrangido nunca procede bem algum, como acontece quando um homem é constrangido por um outro a fazer o bem; mas, aqui, constranger-se a si mesmo vem de um certo livre desconhecido do homem, porque nunca há constrangimento da parte do Senhor. Daí procede essa Lei universal: que todo bem e todo vero devem ser semeados no livre, pois de outro modo o húmus nunca se torna próprio a receber e aquecer o bem, e mesmo não há húmus algum em que a semente possa crescer.