Texto
. ‘Eis que tu estás grávida’; que signifique a vida do Homem Racional, é o que se vê pelo que foi dito sobre a sua concepção e conforme as coisas que se seguem acerca de Ismael, a saber, que ele é o primeiro Racional no Senhor. Em geral, quanto ao homem racional, é necessário saber que do racional se diz ‘receber a vida’, ‘estar no útero’ e ‘nascer’ quando o homem começa a cogitar que nele há o mal e falso, que contradiz e tem aversão ao vero e bem, e mais ainda quando ele quer afastá-lo e subjugá-lo. Se ele não puder perceber e sentir isso, ele não tem racional, embora pense tê-lo. De fato, o racional é o intermediário unindo o homem interno com o homem externo e percebendo assim, pelo Senhor, o que se faz no externo, reduzindo o externo à obediência, elevando-o até acima das coisas corporais e terrestres nas quais ele se mergulha, e obrigando o homem a ser homem, a fim de que dirija os seus olhares para o céu, para o qual ele nasceu, e não unicamente, como os brutos, para a terra, em que ele apenas deve ficar por certo tempo, e menos ainda em dirigi-los para o inferno. Tais são os deveres do racional; por isso, se o homem não for tal que possa pensar assim, não se pode dizer que ele tenha o racional: é pela vida de seu uso ou de sua função que se conhece se ele se tornou racional.
[2] Raciocinar contra o bem e vero que se nega de coração e que se conhece por se ter ouvido falar dele não é ter o racional. Muitos dos que exteriormente se precipitam sem freio em todos os crimes também podem fazê-lo; há somente esta diferença: que os que pensam ter o racional e não o têm põem em seus discursos uma certa decência e em suas ações uma honestidade fingida, as quais eles sujeitam os elos externos, que são o temor da lei, da perda do ganho, da honra, da reputação, da vida; caso esses elos, que são externos, fossem arrebatados, alguns deles seriam ainda mais extravagantes do que os precedentes. Por isso que ninguém pode dizer ter o racional em razão disto: que possa raciocinar. Há mais ainda, é que os que não têm o racional falam ordinariamente a partir das coisas dos sentidos e dos conhecimentos com muito mais habilidade do que os que têm [o racional].
[3] Na outra vida, vê-se isto de forma muito clara por maus espíritos que, ainda que tenham sido tidos como mais racionais do que os outros quando viviam no corpo, entretanto, quando os vínculos externos (que davam uma decência aos seus discursos e uma honestidade fingida à sua vida) lhes são arrebatados, como costuma acontecer a todos os espíritos na outra vida, são mais insensatos do que os que no mundo são evidentemente loucos, pois eles se precipitam em todos os crimes sem pudor, sem termo, sem horror; mas não acontece o mesmo com os que foram racionais quando viveram no mundo; quando os vínculos externos lhes são retirados, eles se tornam ainda mais sensatos, porque eles tinham tido vínculos internos, que são os vínculos da consciência, pelos quais o Senhor tinha conservado os pensamentos deles ligados às leis do vero e bem, que foram os seus racionais.