Texto
. ‘Porque ouviu JEHOVAH a tua aflição’; que signifique quando ele se submetia, é o que se vê pelo que se disse acima (n. 1937), que se humilhar e se afligir é pôr-se sob o poder do Homem Interno. Nesse lugar falou-se também dessa submissão, e foi demonstrado que é constranger-se, e então que no fato de ‘constranger a si próprio’ há o livre, isto é, há o espontâneo e o voluntário, o que faz a diferença entre ‘constranger a si próprio’ e ‘ser constrangido’. Também se demonstrou que sem esse livre, ou sem o espontâneo, ou o voluntário, o homem nunca pode ser reformado nem receber proprium celeste algum; então também, que nas tentações, apesar de parecer o contrário, há mais do livre do que fora das tentações, na verdade, então o livre se torna mais forte conforme os assaltos dados pelos males e falsos e é fortalecido pelo Senhor, a fim de que um proprium celeste seja concedido ao homem; também é por essa razão que o Senhor está muito presente nas tentações. Mostrou-se também que o Senhor jamais constrange pessoa alguma; quem for constrangido a pensar o vero e a fazer o bem não é reformado, mas então pensa ainda mais o falso e quer ainda mais o mal. Toda coação tem isso consigo, o que se pode ver pelos atos e ensinamentos da vida, por meio dos quais são conhecidas estas duas verdades: que as consciências não toleram serem constrangidas, e que nos inclinamos sempre para o que é proibido; cada um até deseja passar do estado do não livre para o estado do livre, porque este pertence à sua vida.
[2] Daí é evidente que o Senhor nunca pode achar agradável alguma coisa que não provém do livre, isto é, do espontâneo ou do voluntário, porque quando não é a partir do livre que alguém adora o Senhor, não há em seu culto coisa alguma que lhe pertença, é o externo que se move, ou antes, que se faz mover por constrangimento, enquanto o interno, ou ele não está em coisa alguma, ou resiste, ou até está em completa oposição. Quando o homem é regenerado pelo livre de que o Senhor o dota, ele se constrange, humilha e até aflige o racional, para que ele se submeta; e daí ele recebe um proprium celeste, proprium que é depois gradualmente aperfeiçoado pelo Senhor e que se torna cada vez mais o livre, de sorte que ele se torna a afeição do bem e do vero proveniente desse bem, e que há nele um prazer; e essa afeição e esse prazer encerram uma felicidade tal qual a dos anjos. É desse livre que o Senhor mesmo fala em João, quando diz:
“A verdade vos faz livres; ... se o Filho vos faz livres, verdadeiramente livres estais” (8:32, 36);
[3] O que é este livre, os que não têm consciência ignoram absolutamente; com efeito, fazem consistir o livre no capricho e na licença de pensar e de dizer o falso, de querer e de fazer o mal e em não constranger nem humilhar, nem menos ainda afligir o mal e o falso, quando, entretanto, é inteiramente o contrário, como o Senhor também o ensina em João:
“Quem comente o pecado é servo do pecado” (8:34).
Esse livre servo, eles recebem-no dos espíritos infernais que estão com eles e que o insinuam; quando eles estão na vida desses espíritos, quando eles estão em seus amores e em suas cobiças pela aspiração de um prazer imundo e excrementício, quando são arrastados como por sua torrente, eles creem estar no livre, mas é um livre infernal. A diferença que há entre esse livre infernal e o livre celeste é que um pertence à morte e arrasta os homens para o inferno, enquanto o outro, ou o livre celeste, pertence à vida e eleva os homens para o céu.
[4] Que todo verdadeiro culto interno seja um ato não de constrangimento, mas sim livre, e que sem o livre não haveria culto interno, é o que se vê pela Palavra, pelos ‘sacrifícios espontâneos’, ‘votivos’, ‘pacíficos’ ou ‘eucarísticos’, que eram chamados presentes e ofertas (de que se fala em Nm. 15:3 e seguintes; Dt. 12:6; 16:10, 11; 23:23, 24 e em outros lugares). Em Davi:
“Um sacrifício voluntário [oferecerei] a Ti, confessarei o teu nome, ó JEHOVAH! Porque [és] bom” (Sl. 54:8 [Em JFA, 54:6]);
pela contribuição [Thrumah], ou coleta, que se devia fazer para o Tabernáculo e para as vestimentas de santidade, de que se fala em Moisés:
“Fala aos filhos de Israel, e recebam para Mim uma coleta; de todo varão que espontaneamente impeliu o seu coração recebereis a minha coleta” (Êx. 25:2);
e nesta passagem:
“Todo coração espontâneo a trará [por] coleta a JEHOVAH” (Êx. 35:5).
[5] Quanto a humilhação do homem racional, ou quanto à sua aflição segundo o livre, como se disse, ela foi também representada pela ‘aflição das almas’ nos dias de festa, como se vê em Moisés:
“[Isto] será para vós como um estatuto de eternidade: no mês sétimo, no décimo mês, afligirás as vossas almas” (Lv. 16:29);
em outra passagem:
“Aos dez do mês sétimo, esse [será] dia da expiação; uma convocação santa tereis e afligireis as vossas almas; ...toda alma que a si não afligir nesse mesmo dia será cortada dos seus povos” (Lv. 23:27, 29).
É daí que o ázimo, no qual não havia fermento, é chamado ‘Pão de aflição’ (Dt. 16:2, 3).
[6] Fala-se assim da aflição em Davi:
“JEHOVAH, quem peregrinará na Tua tenda? Quem habitará no monte da Tua santidade? Aquele que anda íntegro e que pratica a justiça; ... o que jura até se afligir, e não muda” (Sl. 15:1, 2, 4).
Pelo que acaba de ser dito, pode-se ver que a ‘aflição’ é a ação de dominar e subjugar os males e os falsos que se elevam do homem externo em seu racional; por conseguinte, ela não consiste em o indivíduo se lançar na pobreza e nas misérias, nem em renunciar aos prazeres do corpo; não é por tais meios que o mal é dominado e subjugado; as vezes até um outro mal daí surge, a saber, o mérito em razão dessa renúncia, sem levar em conta que o livre do homem sofre por isso, livre no qual, como no húmus, se pode semear unicamente o bem e vero da fé. Que a aflição seja também uma tentação, isso foi visto (n. 1846).