Texto
. Os maus espíritos desejam, com a maior paixão e o mais vivo ardor, infestar e atacar o homem quando ele dorme; mas é sobretudo então que ele é guardado pelo Senhor, porque o amor não dorme. Os espíritos que infestam são punidos a ponto de causarem dó. Ouvi a sua punição mais vezes do que é possível contar; elas consistem em serem decepados, de que se falou nos n. 829; 957, 959, que se fazem debaixo do calcanhar do pé esquerdo, e isso dura às vezes horas inteiras. São as sereias, feiticeiras interiores, que armam ciladas principalmente de noite, e então buscam insinuarem-se nos pensamentos e nas afeições interiores do homem, mas são outras tantas vezes repelidas pelo Senhor, por intermédio dos anjos, e, enfim, elas são desviadas pelo temor dos castigos mais dolorosos. Elas até falaram de noite com outros absolutamente como se fosse eu, com uma palavra como a minha e tão semelhante, que se não reconhecia a diferença, insinuado obscenidades e persuadindo o falso.
[2] Uma vez eu tinha tido um sonho agradabilíssimo, no qual eu não experimentara senão um doce repouso. Quando me despertei, alguns bons espíritos se puseram a me censurar de os ter infestado de um modo, segundo eles, tão atroz, que eles pensavam ter estado no inferno, fazendo recair a culpa sobre mim. Respondi-lhes que eu nada sabia do que eles estavam dizendo, mas que eu tinha dormido muito sossegadamente, de sorte que eu não tinha podido infestá-los. Admirados de minha resposta, eles afinal perceberam que isso era um efeito dos prestígios das sereias. Uma coisa semelhante me foi ainda descoberta mais tarde, para que eu conhecesse qual era a malta das sereias:
[3] São principalmente as pessoas do sexo feminino, que na vida do corpo se aplicaram a atrair os outros a elas por astúcias interiores, insinuando-se pelos externos e angariando a si os espíritos por todos os meios, entrando nas afeições e nos prazeres de cada um, mas visando um fim mau, principalmente o de mandar. Por esse modo, elas possuem, na outra vida, uma tal natureza que lhes parece que elas podem tudo por si mesmas, haurindo e imaginando diferentes artifícios, que elas compreendem tão facilmente quanto as esponjas absorvem tanto as águas sujas como as águas límpidas. Assim também, as sereias se apoderam tanto das coisas profanas como das coisas santas e as põem em ato, como se disse, com o fim de mandar. Deu-se-me perceber quão medonhos são os seus interiores, que foram manchados pelos adultérios e os ódios. Deu-se-me perceber também como a esfera delas tem força; elas dispõem os seus interiores em um estado de persuasão, para que os interiores se entendessem com os exteriores para alcançar o fim a que tendem; é assim que elas constrangem e levam violentamente os espíritos ao ponto de pensarem inteiramente como elas.
[4] Com elas não se descobre raciocínio algum; mas há uma sorte de simultaneidade de raciocínios inspirados pelas más afeições, que operam assim se aplicando às propensões, e há assim uma insinuação nas inclinações dos outros, que elas excitam e que elas oprimem ou surpreendem por persuasão. Elas não têm maior prazer do que destruir a consciência, e quando a consciência é destruída, elas se apossam dos interiores do homem, e até obsedam, ainda que o homem o ignore. Hoje não há mais, como outrora, obsessões externas por essas sereias, mas as internas. Os que não têm consciência são assim obsedados; os interiores de seus pensamentos não estão em uma loucura diferente, mas estão ocultos e velados sobre um exterior decente e sob um disfarce honesto por motivo de honra, interesse e reputação; é até o que eles podem reconhecer se prestarem atenção aos seus próprios pensamentos.
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