ac 1984

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

Livro de Gênesis
Décimo sétimo capítulo
*1984. Poucos homens podem crer que existe, na Palavra, um sentido interno, que não se manifesta de forma alguma pela letra, e isso porque ele se acha de tal modo afastado do sentido da letra, que dista, por assim dizer, como o céu da terra; mas que o sentido da letra contenha em si tais coisas e que ele seja representativo e significativo de arcanos que ninguém vê senão o Senhor e, pelo Senhor, os anjos, é o que se torna evidente pelo que se disse aqui e ali na Primeira Parte. Dá-se com o sentido da letra, em relação ao sentido interno, como com o corpo do homem em relação a sua alma. Enquanto o homem está no corpo e pensa a partir das coisas corporais, ele não sabe quase nada do que se refere à alma, pois as funções do corpo são diferentes das da alma ao ponto que, se as funções da alma [não] fossem desvendadas elas não seriam reconhecidas como tais. O mesmo sucede com os internos da Palavra: a sua alma, isto é, a sua vida, está em seus internos, que tratam unicamente do Senhor, de Seu Reino, de Sua igreja, e das coisas que no homem pertencem a Seu Reino e à Sua igreja. Quando essas coisas são consideradas, é a Palavra do Senhor, porque então a vida mesma está nessas coisas; que isso seja assim, é o que foi confirmado muitas vezes na Primeira Parte e é dado saber como certo. Com efeito, nunca alguma ideia a respeito das coisas corporais e mundanas pode passar para os anjos, mas estas são despojadas e inteiramente removidas no primeiro limiar quando se afasta do homem, como se pôde ver pela própria experiência na Primeira Parte (n. 1769 a 1772). Pode-se ver aí também como essas ideias são mudadas (n. 1872 a 1876).
[2] É ainda o que pode ser suficientemente verificado por um grande número de passagens da Palavra que não são de modo algum inteligíveis no sentido da letra; se não houvesse nessas passagens uma tal alma, ou uma tal vida, elas não seriam reconhecidas como sendo a Palavra do Senhor, e quem não foi habituado desde a infância a crer que a Palavra foi inspirada e é, por conseguinte, santa, não as consideraria como Divinas. Quem é que saberia, pelo sentido da letra, o que significam as palavras que Jacó dirigiu aos seus filhos antes de sua morte? (Gn. 49):
“Que Dã [seria] uma serpente no caminho, uma áspide na vereda, mordendo os calcanhares do cavalo, e cairá o cavaleiro para trás” (vers. 17);
“Que uma tropa assolará a Gad, e ele assolará o calcanhar” (vers. 19);
“Que Naftali [é] uma cerva solta, proferindo discursos elegantes” (vers. 21);
“Que Judá atará à vide o seu jumentinho, e à vide excelente a cria da sua jumenta; lavará no vinho a sua vestimenta, e no sangue das uvas o seu manto, os olhos vermelhos de vinho, e brancos os dentes pelo leite” (vers. 11, 12).
O mesmo se daria com um grande número de passagens dos Profetas. Contudo, o que essas palavras significam é o que não se pode absolutamente descobrir senão no sentindo interno, no qual tudo, tanto em geral como em particular, se acha ligado na mais bela ordem.
[3] Sucede ainda o mesmo com as palavras que o Senhor disse sobre os últimos tempos em Mateus:
“Na consumação do século, o Sol se escurecerá e a Lua não dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu, e os poderes dos céus serão abalados, e então aparecerá o sinal do Filho do Homem, e então prantearão todas as tribos da terra” (24:29, 30).
Estas palavras não significam de modo algum o escurecimento do Sol e da Lua; nem a queda das estrelas do céu, nem o pranto das tribos; mas elas significam que a caridade e a fé (que no sentido interno são o ‘sol’ e a ‘lua’) serão obscurecidas; que as cognições do bem e do vero (que são as ‘estrelas’, e aqui são chamadas ‘poderes dos céus’) cairão assim e se dissiparão; e que todas as coisas pertencentes à fé (que são as tribos da terra) serão dissipadas. É também o que se mostrou na Primeira Parte (n. 31, 32, 1053, 1529, 1530, 1531, 1808). Pelo pouco que acaba de ser dito, pode-se ver agora o que é o sentido interno da Palavra, e que ele está afastado, e, em algumas passagens, muito afastado do sentido da letra; mas apesar disso o sentido da letra representa os veros e oferece as aparências do vero, nas quais o homem pode estar quando ele não está na luz do vero.
* * * * * * *

Versão impressa (opcional)

Para estudo mais confortável, você pode adquirir esta obra em formato impresso: ver orientações.