ac 1992

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Eu [sou] o Deus Shaddai’; que signifique o nome do Deus de Abrão no sentido da letra, nome por meio do qual o Senhor foi primeiro representado diante deles, se vê pelas coisas que, na Palavra, se dizem acerca de Abrão e da ‘casa de seu pai’: que eles tinham adorado outros deuses. Na Síria, de onde saiu Abrão, ficaram remanescentes da Igreja Antiga. E lá muitas famílias tinham conservado o seu culto, como se vê por Éber, que era desse país, donde se originou a nação hebreia. Elas tinham igualmente retido o nome de JEHOVAH, como se viu pelas explicações que foram dadas na Primeira Parte (n. 1343), e por Balaão, que era também da Síria e que ofereceu sacrifícios e chamou a seu Deus JEHOVAH. Que Balaão era da Síria, pode-se ver (Nm. 23:7); que ele ofereceu sacrifícios, Nm. 22:39, 40; 23:1, 2, 3, 14, 29; que ele chamou a JEHOVAH de seu Deus, Nm. 22:8, 13, 18, 31; 23:8, 12, 16.
[2] Não sucedeu, porém, o mesmo com a casa de Terah, pai de Abrão e de Nahor; essa casa estava lá entre as famílias das nações que não só tinham perdido o nome de JEHOVAH, mas de fato serviam a outros deuses e, em lugar de JEHOVAH, adoravam Shaddai, que eles chamavam seu Deus. Que elas tenham perdido o nome de JEHOVAH, vê-se pelas coisas referidas na Primeira Parte (n. 1343); e que serviram a outros deuses, é o que se diz abertamente em Josué:
“Disse Josué a todo povo: Assim disse JEHOVAH, o Deus de Israel: Além do rio habitaram os vossos pais desde o século, Terah, pai de Abrão e pai de Nahor; e serviram a outros deuses. [...] Agora temei a JEHOVAH e servi a Ele em integridade e verdade; e afastai os deuses, aos quais serviram vossos pais além do rio e no Egito, e servi JEHOVAH. E se [é] mal a vossos olhos servir a JEHOVAH, escolhei vós, hoje, a quem sirvais, ou aos deuses aos quais os vossos pais serviram, que [estavam] além do rio, ou aos deuses dos amorreus [...]” (24:2, 14, 15).
Que também Nahor, irmão de Abrão, e a nação que saiu dele tenham servido a outros deuses, vê-se também por Labão, o Sírio, que morava na cidade de Nahor e adorava imagens, ou terafins, que Raquel lhe subtraiu (Gn. 24:10; 31:19, 26, 32, 34). Ver o que se disse a respeito na Primeira Parte (n. 1356). Que em vez de JEHOVAH eles tenham adorado Shaddai, que eles chamavam seu deus, é o que se diz abertamente em Moisés:
“Eu, JEHOVAH, apareci a Abrahão, a Isaque e a Jacó como deus Shaddai72, e por Meu nome, JEHOVAH, não fui por eles conhecido” (Êx. 6:3).
[3] Pelo que acaba de ser dito, pode-se ver qual foi Abrão em sua mocidade, a saber, como os outros gentios, ele foi idólatra, e que até, quando ele esteve na terra de Canaã, ele não tinha rejeitado de seu coração [ex animo] o deus Shaddai, razão por que aqui se diz “Eu sou o Deus Shaddai”, pelo que é significado o nome do deus de Abrão no sentido da letra, e que diante deles, a saber, diante de Abrahão, Isaque e Jacó, o Senhor foi a princípio representado por esse nome, como é evidente segundo a passagem citada (Êx. 6:3).
[4] Se o Senhor quis ser primeiramente representado diante deles pelo nome de Shaddai, a causa é, porque nunca o Senhor quer destruir de repente, nem com mais forte razão, em um momento, o culto que foi semeado no homem desde a infância, porque seria arrancar a raiz e assim destruir a santidade profundamente implantada da adoração e do culto, santidade que o Senhor nunca quebra, mas dobra. A santidade do culto arraigada desde a infância tem isto consigo: que ela não suporta a violência, mas tolera uma flexão lenta e branda; é o que também sucede com os gentios que, na vida do corpo, adoraram ídolos e, contudo, viveram em uma caridade mútua. A santidade de seu culto, pelo fato de se ter arraigado neles desde a infância, é-lhes retirada na outra vida não em um momento, mas sucessivamente. De fato, os bens e os veros da fé podem ser facilmente implantados naqueles que viveram em uma caridade mútua, depois eles os recebem com alegria, porque a caridade é o húmus mesmo. Assim foi feito com Abrahão, Isaque e Jacó, isto é, que o Senhor permitiu que eles retivessem o nome do deus Shaddai, a ponto de Ele próprio dizer ser o deus Shaddai; e isso em razão da significação dessa palavra.
[5] Há intérpretes que traduzem a palavra ‘Shaddai’ por ‘onipotente’ ; outros, por ‘fulminante’; mas ele significa propriamente ‘o tentador’, e depois das tentações, ‘o benfeitor’, como consta em Jó, que, porque se achava nas tentações, o nomeia tantas vezes, como se pode ver por estas passagens:
“Eis, feliz o homem a quem Deus castiga! Não repudie, pois, a disciplina de Shaddai” (5:17);
“As flechas de Shaddai [estão] comigo; os terrores de Deus se dispõem em batalha contra mim” (6:4);
“...o temor de Shaddai [o] abandonará” (6:14);
“Eu falarei a Shaddai, e eu quero contestar com Deus” (13:3);
“[...porque] estende contra Deus a sua mão e se fortifica contra Shaddai” (15:25);
“Os seus olhos verão a sua ruína, e [ele] beberá do furor de Shaddai” (21:20);
“Shaddai, tu não o acharás; [Ele] é grande em poder; e em juízo e em abundância de justiça [Ele] não afligirá” (37:23).
Então, em Joel:
“Ah! Que dia! Porque próximo está do dia de JEHOVAH; e como uma devastação por Shaddai virá” (1:15);
O que também se pode ver pelo próprio vocábulo ‘Shaddai’, que significa vastação, por conseguinte, tentação, pois a tentação é uma espécie de vastação; mas como essa palavra obteve a sua origem das nações que estavam na Síria, Deus não se chama ‘Elohim-Shaddai’, mas sim ‘El-Shaddai’, e em Jó, somente ‘Shaddai’; e ‘El’, ou Deus, é nomeado separadamente
[6] Como depois das tentações há consolações, eles atribuíram também ao mesmo Shaddai o bem que daí provém, como em Jó (22:17, 23, 25, 26); depois o entendimento do vero que procede daí (32:8; 33:4); porque assim era, ele foi tomado pelo deus do vero, porque é ao vero e nunca ao bem que pertencem a vastação, a tentação, a correção e a censura; e como o Senhor foi representado por ele perante Abrahão, Isaque e Jacó, o nome foi retido, mesmo nos Profetas; mas aí, por Shaddai, se entende o vero, como em Ezequiel:
“Ouvi a voz das asas dos Querubins como a voz de muitas águas, como a voz de Shaddai, quando andavam, [era] como uma voz de tumulto73 , como uma voz dos acampamentos” (1:24).
No mesmo:
“[...] O átrio se encheu do esplendor da glória de JEHOVAH; [e] a voz das asas dos Querubins foi ouvida até o átrio exterior como a voz do deus Shaddai quando fala” (Ez. 10:4, 5);
onde ‘JEHOVAH’ designa o bem e ‘Shaddai’ designa o vero; pelas ‘asas’, na Palavra, igualmente, no sentido interno, são significadas as coisas que pertencem ao vero.
[7] Isaque e Jacó chamam também o deus Shaddai em um sentido semelhante, isto é, como um Deus que tenta e livra da tentação, e que depois faz o bem. Isaque disse a seu filho Jacó, que fugia por causa de Esaú:
“O Deus Shaddai te abençoe, e te frutifique, e te multiplique” (Gn. 28:3).
Jacó disse a seus filhos, que iam ao Egito comprar trigo, quando eles tanto temiam José:
“O Deus Shaddai dê a vós misericórdia diante do varão e vos solte o outro irmão, e Benjamin” (Gn. 43:14);
Jacó, que aí é chamado Israel, disse, abençoando José, que mais do que os seus outros irmãos, tinha estado nos males das tentações e delas tinha sido livrado:
“Pelo Deus do teu pai, e ajudar-te-á, e com Shaddai abençoar-te-á” (Gn. 49:25).
É, pois, por essa causa que o Senhor quis primeiro ser representado pelo Deus Shaddai a quem Abrão tinha adorado, dizendo: “Eu [sou] o Deus Shaddai”. E igualmente depois, diante de Jacó: “Eu sou o Deus Shaddai, frutifica e multiplica” (Gn 35:11); era também porque no que precedeu se tratara, no sentido interno, das tentações.
[8] O culto de Shaddai entre eles obteve a sua origem do fato que, como com uma certa nação de que se falará na continuação, pela Divina Misericórdia do Senhor, sucedeu também muitas vezes com os que foram da Igreja Antiga, que eles ouviram espíritos que censuravam e em seguida consolavam; os espíritos que exprobravam eram percebidos no lado esquerdo, debaixo do braço; anjos então se conservavam perto da cabeça para dirigirem os espíritos e moderarem a reprimenda; e como pensassem que tudo que lhes era dito por esses espíritos era Divino, eles chamavam Shaddai o espírito que os censurava, e porque depois ele os consolava, eles o chamavam o deus Shaddai. Nesse tempo, porque não compreendiam o sentido interno da Palavra, eles estavam como estiveram também os judeus, nessa crença religiosa que todo mal e, por conseguinte, toda tentação vinha de Deus, do mesmo modo que todo bem e, por conseguinte, toda consolação; mas para se convencer que sucede coisa muito diferente, basta ver o que se disse na Primeira Parte (n. 245, 592, 696, 1093, 1875).

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