ac 1999

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Caiu Abrão sobre as suas faces’; que signifique a adoração, é o que se vê sem necessidade de explicação. Cair sobre as suas faces era o rito de adorar da Igreja Antiquíssima e, depois, foi o dos antigos; o motivo era porque a face significava os interiores, cujo estado de humilhação era representado por cair sobre as faces; por isso, na igreja representativa judaica, isso se tornou habitual. A verdadeira adoração, ou a humilhação do coração, traz consigo a prostração por terra sobre as faces diante do Senhor como sendo o gesto que daí dimana naturalmente; com efeito, na humilhação do coração há reconhecimento de si: que nada se é senão imundícia; e, ao mesmo tempo, [é o] reconhecimento da Misericórdia infinita do Senhor para com tal imundícia. Quando a mente humana é mantida nesses reconhecimentos, a mente mesma se abaixa para o inferno e faz prostrar o corpo, e não se ergue antes que seja elevada pelo Senhor; isso sucede em toda verdadeira humilhação, com a percepção de que se é elevado pela Misericórdia do Senhor. Tal foi a humilhação dos homens da Igreja Antiquíssima; mas não sucedeu o mesmo com a adoração que não procede da humilhação do coração (ver n. 1153).
[2] Sabe-se pela Palavra, nos Evangelistas, que o Senhor adorou e orou a JEHOVAH, Seu Pai; e isso, como se fosse um outro diferente d’Ele mesmo, ainda que JEHOVAH estivesse n’Ele; mas o estado em que o Senhor então Se achava era o estado de Sua humilhação. Na Primeira Parte foi dito qual tinha sido esse estado, isto é, que o Senhor então Se achava na fraqueza humana que Ele derivava de Sua mãe; mas quanto mais Ele Se desprendia dela e revestia o Divino, outro tanto Ele Se achava em outro estado, que é chamado o estado de Sua glorificação. No estado anterior Ele adorava JEHOVAH como a outro diferente de Si, ainda que JEHOVAH estivesse n’Ele, pois, como se disse, o Seu Homem Interno era JEHOVAH; mas neste estado, a saber, o estado de glorificação, Ele falava com JEHOVAH como consigo mesmo, afinal Ele mesmo era JEHOVAH.
[3] Contudo, é impossível compreender esse estado de coisas exceto se se souber o que é o Interno e como o Interno atua no Externo, e, além disso, como o Interno e o Externo foram distinguidos entre si e, contudo, conjuntos. No entanto, isso pode ser ilustrado por alguma coisa semelhante, a saber, pelo interno no homem e pelo influxo e a operação do interno no externo nele. Que o homem tenha um interno, um interior (ou racional) e um externo, é o que se viu precedentemente (n. 1889, 1940). O interno do homem é o que faz com que o homem seja homem e o que o distingue dos animais. Por esse interno, o homem vive depois da morte e eternamente, e por ele o homem pode ser elevado pelo Senhor entre os anjos; ele é mesmo a primeira forma da qual o homem se torna e vem a ser homem. Por meio deste interno o Senhor Se une ao homem. O próprio céu está próximo do Senhor por causa desses internos humanos, mas, acima do céu angélico íntimo, por isso esses internos pertencem ao Senhor mesmo; assim todo gênero humano está muito presente sob os olhos do Senhor; a distância que aparece no globo sublunar é nula no céu e, com mais forte razão, acima do céu (ver o que foi referido por experiência, n. 1275, 1277).
[4] Esses internos dos homens não têm a vida em si, mas eles são as formas recipientes da vida do Senhor. Tanto quanto o homem está no mal, tanto [o] do ato como [o] hereditário, outro tanto ele está como que separado desse interno que é do Senhor e está no Senhor, por conseguinte, ele está separado do Senhor; pois ainda que esse interno esteja adjunto ao homem e seja inseparável dele, contudo, é certo que o homem se separa, por assim dizer, desse interno conforme ele se afasta do Senhor (n. 1594); mas essa separação não consiste em que haja desprendimento do interno, porque [assim] o homem não poderia mais viver depois da morte, mas consiste em um dissentimento e uma dissensão entre o interno e as faculdades do homem que estão por baixo, isto é, que pertencem a seu homem racional e ao seu homem externo. Tanto quanto há dissentimento e dissensão, outro tanto o homem fica disjunto; mas tanto quanto não há dissentimento nem dissensão, outro tanto o homem é conjunto ao Senhor pelo interno, o que sucede conforme ele está no amor e na caridade, porque o amor e caridade conjunge; é assim que acontece com o homem.
[5] Mas o Interno do Senhor foi o próprio JEHOVAH, posto que o Senhor foi concebido de JEHOVAH, Que não pode ser dividido e se tornar o interno de um outro, como o de um filho que foi concebido por um pai humano, porque o Divino não é divisível como o humano, mas é e permanece um e o mesmo. O Senhor uniu a Essência Humana com esse Interno, e como o Interno do Senhor foi JEHOVAH, ele não foi, como o interno do homem, uma forma recipiente da vida, mas foi a Vida mesma. A Essência Humana do Senhor também se tornou, pela união, igualmente a vida; é por isso que o Senhor disse tantas vezes que Ele é a Vida, como em João:
“Do mesmo modo que o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também deu ao Filho o ter a vida em Si mesmo” (5:26);
além de outras passagens no mesmo (1:4; 5:21; 6:33, 35, 48; 11:25). Quanto, pois, o Senhor estava no humano que Ele recebeu por herança materna, tanto Ele apareceu distinto de JEHOVAH e adorou a JEHOVAH como um outro diferente de Si; mas tanto quanto o Senhor despojou esse humano, outro tanto Ele foi não distinto de JEHOVAH, mas um só com Ele; o primeiro estado foi, como se disse, o estado de humilhação do Senhor, enquanto o segundo foi o Seu estado de glorificação.

Versão impressa (opcional)

Para estudo mais confortável, você pode adquirir esta obra em formato impresso: ver orientações.