Texto
. ‘E serás por pai de uma multidão de nações’; que signifique a união da Essência Humana com a Divina, não se pode ver assim, pela explicação de cada palavra no sentido interno, exceto se se considerar estas palavras por meio de uma ideia geral pela qual esse sentido se manifesta; tal é, às vezes, o sentido interno. Quando ele é tal, pode-se chamá-lo sentido mais universal, porque ele é mais afastado. Da explicação de cada palavra resulta esse sentido [mais] próximo: que do Senhor procede todo vero e todo bem; porque, como se dirá mais abaixo, o ‘Pai’ significa d’Ele, isto é, do Senhor; a ‘multidão’, o vero; e ‘nações’, o bem proveniente do vero; mas como é por esse modo, isto é, pelos veros e pelos bens que o Senhor uniu a Essência Humana à Essência Divina, este último sentido mais universal e mais afastado surge do primeiro sentido. Os anjos percebem assim essas palavras, então conjuntamente a união recíproca, a saber, a união da Essência Divina do Senhor com a Sua Essência Humana, e de Sua Essência Humana com a Sua Essência Divina; porque, como se disse, estas palavras, “Eu [sou], eis a Minha aliança contigo”, significam a união da Essência Divina com a Essência Humana; e as de que se trata aqui significam a união da Essência Humana com a Essência Divina.
[2] Que essa união se operou reciprocamente, é um arcano que ainda não foi descoberto e que é tal que dificilmente pode ser exposto de modo a ser compreendido, porque ninguém ainda conheceu a qualidade do influxo, e sem a cognição do influxo não é possível ter ideia alguma do que é a união recíproca. Contudo, isso pode ser ilustrado, até certo ponto, pelo influxo no homem, pois também no homem há uma conjunção recíproca desde o Senhor, por meio do interno do homem, da qual [conjunção] acaba de se tratar acima (n. 1999). A vida influi continuamente do Senhor no racional do homem e, por esse racional, no externo e, na verdade, nas coisas do conhecimento e nas cognições dele, e não só ele adapta essas coisas para que recebam a vida, como também dispõe em ordem e deste modo faz com que o homem possa pensar e, enfim, faz com que se torne racional. É essa a conjunção do Senhor com o homem, sem a qual o homem nunca poderia pensar e nem com mais forte razão ser racional. Qualquer um pode ver que há no pensamento do homem inúmeros arcanos do conhecimento e da arte analítica, e de tal modo inúmeros, que não poderiam ser sondados durante toda a eternidade; esses arcanos não influem de modo algum pelos sentidos, ou pelo homem externo, mas sim pelo homem interno; não obstante, de seu lado o homem vai, pelas coisas do conhecimento e pelas cognições, ao encontro dessa vida que procede do Senhor; é assim que ele se conjunta reciprocamente.
[3] Quanto ao que diz respeito a união da Essência Divina do Senhor com a sua Essência Humana e da Sua Essência Humana com a Sua Essência Divina, ela é de uma transcendência infinita, porque o Interno do Senhor foi JEHOVAH mesmo, por conseguinte, a vida mesma, enquanto o interno do homem não é o Senhor e nem, por conseguinte, a vida, mas é o recipiente da vida. Houve união do Senhor com JEHOVAH, porém, não há união do Senhor com o homem, mas sim conjunção. O Senhor, por Seu próprio poder, uniu-Se a JEHOVAH, por isso também Ele Se tornou a justiça, enquanto o homem não se conjunta por seu próprio poder, mas pelo do Senhor, de modo que é o Senhor que conjunta a Si o homem. É essa união recíproca que é designada pelo Senhor quando atribui ao Pai o que é d’Ele e atribui a Si o que é do Pai, como em João:
“Jesus disse: Quem crê em Mim, crê não em Mim, mas n’Aquele que Me enviou. [Aquele que Me vê, vê Aquele que Me enviou.] Eu [sou] a Luz, vim ao mundo para que aquele que crê em Mim não permaneça em trevas” (12:44-46).
Nessas palavras estão ocultos profundos arcanos, e até os que se referem a união do bem com o vero e do vero com o bem; ou o que é o mesmo, a união da Essência Divina com a Essência Humana e da Essência Humana com a Essência Divina; por isso o Senhor disse: “Quem crê em Mim, crê não em Mim, mas n’Aquele que Me enviou” e logo depois de “Quem crê em Mim”, a respeito dessa união que intervém, Ele Se exprime assim: “Quem Me vê, vê Aquele que Me enviou”.
[4] No mesmo:
“As palavras que Eu vos falo, de Mim mesmo não falo; o Pai, Que em Mim permanece, Ele faz as obras. Crede-Me que Eu [estou] no Pai e o Pai em Mim. Amém vos digo, quem crê em Mim, as obras que Eu faço [ele as fará também]74” (14:10-12).
Nessas palavras estão os mesmos arcanos, a saber, sobre a união do bem com o vero e do vero com o bem, ou o que é o mesmo, sobre a união da Essência Divina do Senhor com a Essência Humana e da Essência Humana com a Essência Divina; é por isso que Ele disse: “As palavras que Eu vos falo, de Mim mesmo não falo; o Pai, Que [está] em Mim, faz as obras”; e logo em seguida: “as obras que Eu faço”. A respeito da união que intervêm aqui igualmente, Ele se exprime assim: “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim”75; é essa a união mística de que muitos falam.
[5] Por tudo isso é evidente que o Senhor não foi outro senão o Pai, ainda que falasse do Pai como sendo de um outro diferente d’Ele mesmo, e isso por causa da união recíproca que devia se fazer e que foi feita. Com efeito, Ele diz tantas vezes manifestamente que Ele é um com o Pai, como nas passagens seguintes:
“Quem Me vê, vê Aquele que Me enviou” (João, 12:45);
depois:
“...o Pai Que em Mim permanece. ... Crede-Me que Eu [estou] no Pai e o Pai [está] em Mim” (João, 14:10, 11);
e no mesmo:
“Se Me conhecêsseis, conheceríeis também Meu Pai” (João, 8:19);
e no mesmo:
“Se Me houvesses conhecido, teríeis conhecido também o Meu Pai, e desde agora O tendes conhecido e O tendes visto. Disse-Lhe, Felipe: Mostra-nos o Pai. ... Disse-lhe, Jesus: Tanto tempo estou convosco e não Me conheceste, Felipe?! Quem vê a Mim vê o Pai; como dizes tu, mostra-nos o Pai? Não crês que Eu [estou] no Pai e o Pai esteja em Mim?” (João, 14:7–10);
e no mesmo:
“Eu e o Pai somos um” (João, 10:30).
Daí vem que no céu não se conhece outro Pai senão o Senhor, porque n’Ele está o Pai e que Ele é um com o Pai, e quando O veem, veem o Pai, assim como Ele mesmo disse (ver n. 15).