. Que ‘reis sairão de ti’ signifique que todo vero vem do Senhor, é o que se vê pela significação de ‘rei’ na Palavra tanto histórica como profética, que é o vero, como foi dito (n. 1672) — mas isso não foi, de certa forma, demonstrado. Pela significação das ‘nações’ (que são os bens) e pela significação dos ‘reis’ (que são os veros), pode-se ver a qualidade do sentido interno da Palavra e quanto ele está afastado do sentido da letra. Quem lê a Palavra, principalmente a Palavra histórica, não pode deixar de crer que as nações nela são nações, e que os reis nela são reis, e que assim na Palavra mesma se trata das nações e dos reis que são nomeados; mas a ideia de nações e de reis se dissipa inteiramente quando a Palavra é acolhida pelos anjos e em lugar das nações e dos reis sucedem o bem e o vero. É impossível que isso deixe de parecer estranho e até paradoxal, mas a verdade é que a coisa se passa assim. Qualquer um pode também ter disso a convicção no fato que, se as nações e os reis significassem, na Palavra, nações e reis, então a Palavra do Senhor não encerraria quase nada mais do que qualquer outro livro de história ou qualquer outro escrito, e seria assim uma obra mundana, quando, entretanto, não há coisa alguma, na Palavra, que não seja Divina, por conseguinte, nada que não seja celeste e espiritual. [2] Por exemplo, neste versículo se diz que Abrahão seria frutificado, e seria posto sobre nações, e que reis sairiam dele. Ora, que é isso senão coisas meramente mundanas e de forma alguma celestes? De fato, não há aí senão a glória no mundo, que é absolutamente nada no céu; no entanto, se é a Palavra do Senhor, deve haver nela a glória do céu, e de nenhum modo a do mundo. É também por isso que o sentido da letra se apaga e se dissipa inteiramente quando ele passa para o céu, e se purifica a ponto de nada de mundano ficar aí misturado, afinal, por ‘Abrahão’ não se entende Abrahão, mas o Senhor; por ‘frutificar’ não se entende a sua posteridade que cresceria ‘em muito muito’, mas o bem da Essência Humana do Senhor, que cresceria ao infinito; por ‘nações’ não se entendem nações, mas os bens, e pelos ‘reis’, não reis, mas os veros; permanecendo, entretanto, em sua verdade, o histórico conforme o sentido da letra, porque é verdadeiro que foi dito a Abrahão, que ele seria assim frutificado, e que dele sairiam nações e também reis. [3] Que os ‘reis’ signifiquem os veros, é o que se pode ver por estas passagens: Em Isaías: “Os filhos do estrangeiro edificarão os teus muros, e os reis deles servir-te-ão; ... [E] sugarás o leite das nações, e sugarás a teta dos reis [...]” (60:10, 16); o que é ‘sugar o leite das nações e a teta dos reis’ não se vê de modo algum pela letra, mas a partir do sentido interno se vê que é ser dotado dos bens e ser instruído nos veros. Em Jeremias: “Entrarão pelos portões desta cidade os reis; e os príncipes, assentando sobre o trono de Davi, montando em carro e cavalos” (17:25; 22:4); ‘montar em um carro e em cavalos’ é uma expressão profética que significa a abundância das coisas intelectuais, como se pode ver por muitas passagens nos Profetas; assim, pelos ‘reis que entrarão pelos portões da cidade’ é significado no sentido interno que se imbuiria dos veros da fé. É esse o sentido celeste da Palavra para o qual passa o sentido mundano da letra. [4] No mesmo: “[...] JEHOVAH desprezou na indignação da Sua cólera o rei e o sacerdote; ...soterraram-se na terra os portões de Sião, destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o rei e os príncipes [estão] entre as nações, não há lei” (Lm. 2:6, 9); aí o ‘rei’ está no lugar do vero da fé; o ‘sacerdote’, do bem da caridade; ‘Sião’, da igreja que está perdida e “cujos ferrolhos estão quebrados”; daí, “o rei e os príncipes estão entre as nações”, isto é, o vero e as coisas pertencentes ao vero serão exilados ao ponto que ‘não há lei’, isto é, nenhuma coisa da Doutrina da fé. Em Isaías: “Antes que saiba o menino reprovar o mal e escolher o bem, é abandonado o húmus que tu desdenhas diante de seus dois reis” (7:16); onde se trata do Advento do Senhor; o ‘húmus que será abandonado’ é a fé que será então nula e cujos veros, que são os ‘reis’, ‘serão desdenhados’. [5] No mesmo: “[...] Levantarei para as nações a minha mão, e para os povos alçarei o meu estandarte, e trarão os teus filhos no seio. E as tuas filhas sobre o ombro serão transportadas. Serão, os reis, os teus aios, e as senhoras deles as tuas amas [...]” (Is. 49:22, 23). As ‘nações’ e as ‘filhas’ são os bens; os ‘povos’ e os ‘filhos’, são os veros, como já foi explicado na Primeira Parte. (Que as nações sejam os bens, n. 1259, 1260, 1416, 1849; e igualmente as filhas, n. 489, 490, 491; que os povos sejam os veros, n. 1259, 1260; e igualmente os filhos, n. 489, 491, 533, 1147.) Os ‘reis’ são, portanto, os veros em geral de que se será nutrido, e as ‘senhoras deles’, os bens de que ele se nutrirá; dizer os bens e os veros ou os que estão nos bens e nos veros, é o mesmo. [6] No mesmo: “Aspergirão sobre muitas nações, os reis fecharão suas bocas sobre eles, porque viram o que lhes foi anunciado, e o que não viram, entenderam” (52:15); onde se trata do Advento do Senhor; as ‘nações’ significam os que têm afeições pelos bens, e os ‘reis’ os que as têm pelos veros. Em Davi: “Agora, sede, ó reis, inteligentes; [sede] instruídos, juízes da terra. Servi a JEHOVAH com temor e exultai com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite e pereçais no caminho” (Sl. 2:10, 11, 12); os ‘reis’ estão no lugar dos que estão nos veros; os que estão nos veros são também, em virtude dos veros, chamados aqui e ali ‘filhos do rei’; aqui o ‘Filho’ designa o Senhor, que é chamado Filho porque Ele é o Vero mesmo e porque todo vero procede d’Ele. [7] Em João: “Cantavam um cântico novo, digno és de receberes o Livro, e de abrires os selos deles;... fizeste-nos ao nosso Deus reis e sacerdotes, para reinarmos sobre a terra” (Ap. 5:9, 10); onde os que estão nos veros são chamados ‘reis’; o Senhor também os chama ‘filhos do reino’ em Mateus: “Quem semeia a boa semente é o Filho do Homem, o campo é o mundo, a semente são os filhos do reino, e o joio são os filhos do mal” (13:37, 38). Em João: “O sexto anjo derramou a sua taça sobre o rio grande, o Eufrates, cuja água se secou, para preparar o caminho dos reis, que [devem vir] do oriente do Sol” (Ap. 16:12); é evidente que pelo ‘Eufrates’ não é significado o Eufrates, e que pelos ‘reis que devem vir do oriente do Sol’ não são também significados reis. Já se disse o que é o ‘Eufrates’ (n. 120, 1585, 1866); daí se vê o que significa ‘o caminho dos reis que devem vir do oriente do Sol’, vê-se que são os veros da fé que procedem dos bens do amor. [8] No mesmo: “As nações que são salvas andarão na luz d’Ele, e os reis da terra trarão a glória e a honra deles para ela” (Ap. 21:24); onde as ‘nações’ significam os que estão nos bens, e os ‘reis da terra’, os que estão nos veros; é também o que se vê claramente, porque aí se trata de coisas proféticas e não de coisas históricas. No mesmo: “Com a grande meretriz assentada sobre muitas águas prostituíram-se os reis da terra, e embriagaram-se com o vinho da sua escortação” (Ap. 17:2). E em outro lugar: “Babilônia do vinho [do furor] de sua escortação dá de beber a todas as nações;... E os reis da terra escortaram com ela” (Ap. 18:3, 9); aí se vê igualmente que os ‘reis da terra’ não significam reis; com efeito, trata-se da falsificação e da adulteração da doutrina da fé, isto é, do vero, o que é a escortação; os reis da terra são os veros que foram falsificados e adulterados. [9] No mesmo: “Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam o reino, mas que receberão o poder como reis durante uma hora com a besta. Eles terão uma só mente, e o poder e a autoridade deles darão à besta” (Ap. 17:12, 13). Que aqui os reis não sejam reis, qualquer um também pode ver claramente; de outro modo seria impossível compreender que dez reis recebessem como reis o poder durante uma só hora. Diz-se igualmente no mesmo: “Vi a besta e os reis da terra, e os exércitos deles reunidos para fazerem guerra contra Aquele que estava sentado sobre o cavalo e ao exército d’Ele” (Ap. 19:19); no vers. 13 do mesmo capítulo se diz abertamente que, aquele que está montado no cavalo é a Palavra de Deus, contra o qual os que estão reunidos são chamados ‘reis da terra’; a ‘besta’ significa os bens do amor que são profanados; os ‘reis’ designam os veros da fé que estão adulterados; eles são chamados reis da terra porque eles estão no interior da igreja (que a terra seja a igreja, ver n. 662, 1066, 1067, 1252); o ‘cavalo branco’ está no lugar do entendimento do vero; ‘o que está sentado no cavalo’ está no lugar da Palavra. Há ainda alguma coisa mais manifesta em Daniel (cap. 11), onde se trata da guerra entre o ‘rei do sul’ e o ‘rei do norte’, pelos quais são significados os veros e os falsos que travaram combates entre si, e os combates aí são descritos também historicamente por meio de uma guerra. [10] Como o ‘rei’ significa o vero, pode-se ver o que se deve entender, no sentido interno, quando o Senhor é chamado rei, e também quando Ele é chamado sacerdote, assim, o que foi representado no Senhor pelos reis e o que foi representado pelos sacerdotes. Os reis representaram o Seu Divino Vero, e os sacerdotes, o Seu Divino Bem. Todas as leis da ordem, pelas quais o Senhor governa o universo como rei, são os veros; mas todas as leis pelas quais Ele governa o universo como sacerdote e pelas quais Ele rege os próprios veros, são os bens; pois o governo pelos veros só ordenariam cada um ao inferno, mas o governo pelos bens retira do inferno e eleva ao céu (n. 1728). Como esses dois governos estão conjuntos no Senhor, eles também eram antigamente representados pela realeza conjunta ao sacerdócio, como com Melquisedeque, que foi rei de Salém e, ao mesmo tempo, sacerdote ao Deus Altíssimo (Gn. 14:18); e mais tarde com os judeus, onde a Igreja Representativa em sua forma, foi instituída por juízes e sacerdotes, depois pelos reis. [11] Contudo, como os reis representavam os veros que não deviam ter o mando, e isso, assim como foi dito, porque eles condenam, eis por que esse governo desagradava de tal modo que os judeus foram exprobrados pelo fato de o pedirem, e que a qualidade do vero considerado em si foi descrita pelo Direito do rei (1Sm. 8:11 a 18); e anteriormente ele lhes tinha sido mandado por Moisés (Dt. 17:14 a 18), que escolhessem o vero genuíno que procede do bem, e não um vero não genuíno [spurium], e que não o manchassem pelos raciocínios nem pelos conhecimentos; é isso o que envolve o mando a respeito do rei em Moisés, na passagem citada. Não há pessoa alguma que possa vê-lo pelo sentido da letra, mas é, contudo, evidente depois de cada palavra no sentido interno, e, por conseguinte, consta que pelo rei e pela realeza não foi representada e não foi significada outra coisa mais do que o vero.