Texto
. Que ‘tu e a tua semente depois de ti’ signifique que é pelo Senhor que se faz a conjunção de todos os que têm a fé n’Ele, é o que se vê pela significação da ‘semente’, que é a fé, como já se disse algumas vezes acima, e pela significação de ‘depois de ti’, que é seguir o Senhor (n. 2019). Primeiro se tratou da união da Essência Divina com a Essência Humana e da Essência Humana com a Essência Divina; agora, aqui, se trata da conjunção do Senhor com os que creem n’Ele; é até por isso que a palavra ‘Tu’ é repetida, a saber, ‘Tu guardarás a Minha aliança’, ‘Tu e a tua semente’; por essa repetição e essa adição à semente se verifica que, no sentindo interno, é a conjunção que é significada, e até a conjunção com os que são a semente, pela qual é significada a fé da caridade, como foi explicado (n. 1025, 1447, 1610); e que a fé é a caridade mesma, como se viu na Primeira Parte (n. 30 a 38, 379, 389, 654, 724, 809, 916, 1017, 1076, 1077, 1162, 1176, 1258, 1798, 1799, 1834, 1844).
[2] O Senhor também, quando fala de Sua união com o Pai, fala logo e imediatamente de Sua conjunção com o gênero humano, porque foi essa a causa da união, como se vê em João:
“Para que todos sejam um, como Tu, [ó] Pai, [o És] em Mim e Eu em Ti; para que também eles sejam um em nós,... Eu lhes dei a glória que Me deste, para que sejam um como nós somos um. Eu neles e Tu em Mim [...] Pois fiz conhecido para eles o Teu Nome, e conhecido farei, para que o amor com que Me amaste esteja neles” (17:21, 22, (23,) 26);
destas palavras claramente se vê que o Senhor, na união d’Ele com Seu Pai, teve em vista a conjunção d’Ele mesmo com o gênero humano; e que Ele a teve de coração, porque ela foi o Seu amor, pois toda conjunção se opera pelo amor, o amor sendo a conjunção mesma.
[3] O Senhor disse em outra passagem no mesmo:
“[...] porque Eu vivo, também vós vivereis. Naquele dia vós conhecereis que Eu [estou] no Pai e vós [estais] em Mim, e Eu em vós. Quem tem os Meus preceitos e os faz, esse Me ama [...]” (João, 14:19, 20, 21);
daí se vê igualmente que o Senhor, na união de Sua Essência Humana com a Sua Essência Divina, teve em vista a conjunção d’Ele mesmo com o gênero humano, e que essa conjunção foi o seu propósito [finis], e esse foi o Seu amor, amor que era tal que, a salvação do gênero humano considerada na união d’Ele mesmo com Seu Pai Lhe proporcionava uma alegria íntima; e aqui, o que une é também designado: é ter os seus preceitos e fazê-los, é, portanto, amar o Senhor.
[4] No mesmo:
“Pai, glorifica o Teu nome. Saiu, pois, uma voz do céu: E [o] glorifiquei, e de novo [o] glorificarei. [...] Jesus disse: Não é por causa de Mim que essa voz se fez [ouvir], mas por causa de vós. [...] Eu, porém, quando for elevado da terra, a todos atrairei após Mim” (João, 12:28, 30, 32);
pela glorificação entende-se a união, como foi dito; e que na união d’Ele com o Pai, o Senhor tenha tido em vista a conjunção d’Ele mesmo com o gênero humano, é dito abertamente, a saber, “[Eu,] quando for elevado, a todos atrairei após Mim”.
[5] Que a conjunção do Infinito, ou do Divino Supremo, tenha sido feita com o gênero humano pelo Humano do Senhor feito Divino, e que essa conjunção tenha sido a causa do Advento do Senhor ao mundo, é um arcano que muitos inquirem consigo, e como não compreendem, eles não creem, e como não creem porque não compreendem, isso vem a ser para eles um escândalo. Deu-se-me conhecer que assim sucede por um grande número de experiências sobre os que entram na outra vida. Um grande número dentre eles, quase a maioria dos homens de talento no mundo, por pouco que pensem que o Senhor se fez homem, que Ele teve como um outro homem uma forma externa, que padeceu, e que entretanto Ele governa o universo, enchem logo a sua esfera de escândalos, pela razão que, isso era para eles um escândalo na vida do corpo, apesar de não terem então divulgado coisa alguma do que pensavam, e, apesar de terem adorado o Senhor por uma santidade externa; de fato, na outra vida, os interiores se mostram claramente e são manifestados pela esfera que se estende ao redor deles e de que já se falou na Primeira Parte (n. 1048, 1053, 1316, 1504). Por esse modo percebe-se claramente de que fé eles foram e o que eles pensaram sobre o Senhor.
[6] Já que isso é assim, ainda me foi permitido expor em poucas palavras como a coisa se passa: Depois que todo celeste pereceu no homem, isto é, depois que todo amor em Deus pereceu, de sorte que não houve mais vontade do bem, então o gênero humano foi separado do Divino, porque é somente o amor que conjunge. O amor tendo-se tornado nulo, fez-se a disjunção, e quando há disjunção, a destruição e a extirpação são a consequência; fez-se então uma promessa sobre o Advento do Senhor ao mundo, O Qual devia unir o Humano ao Divino, e por essa União conjungir n’Ele o gênero humano pela fé do amor e da caridade.
[7] Desde a época da primeira promessa (de que se fala no Gênesis, 3:15) a fé do amor no Advento do Senhor conjungiu; quando, porém, não restou fé do amor sobre o globo terrestre, então o Senhor veio e uniu a Essência Humana à Essência Divina a ponto de elas serem absolutamente uma, como Ele o diz claramente e tem ensinando, ao mesmo tempo, o caminho da verdade, declarando que quem cresse n’Ele, isto é, quem amasse a Ele e a tudo que Lhe pertence e estivesse no amor que Ele mesmo tem para com todo o gênero humano, assim, no amor para com o próximo, seria conjunto e salvo.
[8] Quando no Senhor o Humano se tornou Divino e o Divino se tornou Humano, o influxo do Infinito, ou do Divino Supremo, se fez com o homem, que de outro modo nunca teria podido existir. Por esse modo foram dissipadas as abomináveis persuasões do falso e as abomináveis cobiças do mal que encheram o mundo dos espíritos, que continuamente se enchia com as almas vindas do mundo; e os espíritos que estavam nessas persuasões e nessas cobiças foram precipitados no inferno e, portanto, separados. Se essa separação não tivesse sido feita, o gênero humano teria perecido, porque ele é governado pelo Senhor por intermédio dos espíritos: e essas persuasões e essas cobiças não podiam ser dissipadas de outro modo. Com efeito, não existia operação do Divino pelos racionais nas coisas dos sentidos internos do homem, porque elas estão abaixo do Divino Supremo, portanto, não unido. Há, além disso, arcanos ainda mais interiores, que não podem ser, de modo algum, postos ao alcance de nenhum homem (veja-se o que se disse nos n. 1676, 1990, 2016). Pode-se ver também que o Senhor aparece como sol no céu dos anjos celestes, e como lua no céu dos anjos espirituais, e que o sol é o celeste de seu amor, e a lua, o espiritual desse amor (n. 1053, 1521, 1529, 1530, 1531), e que todas as coisas, tanto em geral como em particular, estão sob o olhar d’Ele (n. 1274 no fim, 1277 no fim).