Texto
. ‘Circuncidareis a carne do vosso prepúcio’; que signifique a remoção do amor de si e do amor do mundo, é evidente pela representação e significação da ‘circuncisão’, que é a purificação dos amores impuros, de que se tratou logo acima (n. 2039); e então pela significação da ‘carne’, que é o proprium do homem (n. 999). O proprium do homem não vem senão do amor de si e do mundo, assim, de todas as cobiças que daí provêm. Mostrou-se na Primeira Parte (n. 141, 150, 154, 210, 215, 694, 731, 874, 875, 876, 987, 1047) o quanto esse proprium é impuro. Como é esse proprium que deve ser removido que é significado, ele é aqui chamado ‘carne do prepúcio’.
[2] São os dois amores assim nomeados (e também as suas cobiças) que se opõem ao influxo do amor celeste procedente do Senhor, pois quando eles reinam no homem interior e no homem externo e se apossam deles, ou eles rejeitam ou abafam o amor celeste que influi, assim como o pervertem e o contaminam, porque eles são absolutamente contrários ao amor celeste. Na continuação, pela Divina Misericórdia do Senhor, demonstrar-se-á que eles são absolutamente contrários a esse amor; mas quanto mais eles são afastados, tanto mais o amor celeste que influi do Senhor começa a aparecer, e até brilha em seu homem interior, e tanto mais o homem começa a ver que está no mal e no falso; ele vê mesmo, depois, que está na impureza e na imundície e, enfim, que isso tinha sido do seu proprium mesmo.
[3] É nos que são regenerados que esses amores são afastados; isso pode também ser percebido pelos que não são regenerados; com eles, quando as cobiças desses amores repousam, como às vezes acontece quando eles estão em uma santa meditação, ou quando essas cobiças adormecem — o que acontece quando eles se acham em infortúnios, pesares, doenças, e principalmente no momento da morte — então as coisas corporais e mundanas estando adormecidas e como mortas, eles percebem alguma coisa da luz celeste e do alívio que daí procede; mas entre eles não há afastamento dessas cobiças, há somente entorpecimento, porque logo que eles voltam ao estado precedente, eles tornam a cair nessas cobiças.
[4] Nos maus também as coisas corporais e mundanas podem estar entorpecidas, e então eles podem ser elevados como em uma sorte de celeste, como acontece às vezes com as almas, principalmente com as que entraram recentemente na outra vida e que desejam ardentemente ver a glória do Senhor porque ouviram falar muito do céu quando viviam no mundo; então esses externos ficam adormecidos nelas e elas são elevadas ao primeiro céu e usufruem o objeto de seu desejo; mas não podem lá subsistir por muito tempo, porque é somente um repouso das coisas corporais e mundanas, e não um afastamento delas, como com os anjos (ver n. 541, 542). Cumpre saber que o amor celeste influi continuamente do Senhor no homem, e que nada há que ponha obstáculos e empecilho a esse influxo e faça com que o homem não possa recebê-lo, exceto as cobiças desses amores e as falsidades que deles provêm.