. ‘De todo filho estrangeiro que não é da tua semente’; que signifique os que estão fora da igreja, é o que se vê pela significação do ‘filho estrangeiro’, que são os que não nasceram dentro da igreja, por conseguinte, os que não estão nem nos bens nem nos veros da fé, pois não estão nas cognições desses bens e veros; os ‘filhos estrangeiros’ significam também os que estão em um culto externo, dos quais se tratou (n. 1097); mas então se tratou dos que estão dentro da igreja; aqui, ao contrário, como se trata da Igreja do Senhor no universal, os filhos estrangeiros designam os que não nasceram dentro da igreja como são as nações. As nações, que estão fora da igreja, podem estar nos veros, mas não nos veros da fé; os seus veros são como os preceitos do Decálogo, de honrar seu pai e sua mãe, de não matar, de não furtar, de não cometer adultério, não cobiçar o que pertence a outrem, e de adorar uma divindade; mas os veros da fé são todos os doutrinais sobre a vida eterna, sobre o Reino do Senhor e sobre o Senhor; esses veros não podem ser conhecidos por eles, porque eles não têm a Palavra. [2] São esses que são significados pelos “filhos estrangeiros que não são da semente, e que devem ser circuncidados com os outros”, isto é, devem ser purificados. Daí é evidente que eles podem ser purificados como os que estão dentro da igreja, é o que era representado por ser circuncidado. Eles são purificados quando rejeitam os amores impuros e vivem entre si na caridade. Com efeito, eles vivem então nos veros — porque todos os veros pertencem à caridade —, mas nos veros de que se acabou de falar. Quando eles vivem nesses veros, eles recebem facilmente os veros da fé, se não for na vida do corpo, pelo menos na outra vida, porque os veros da fé são os veros interiores da caridade; porque então eles não amam nada mais que serem admitidos nos veros interiores da caridade. Os interiores da caridade são aquilo em que consiste o Reino do Senhor (a respeito desses interiores ver n. 932, 1032, 1059, 1327, 1328, 1366). [3] Na outra vida, o conhecimento das cognições da fé nada faz, porque os espíritos mais perversos, até mesmo os espíritos infernais, podem estar no conhecimento delas, às vezes mais do que os outros; mas é a vida de acordo com as cognições que faz tudo, pois todas as cognições têm como fim a vida; se elas não forem aprendidas com relação à vida, elas não seriam de uso algum, exceto para se poder falar delas e, por consequência, passar no mundo por sábio, ser elevado às honras e adquirir reputação e riquezas. Por tudo isso, vê-se que a vida das cognições da fé outra coisa não é senão a vida da caridade, porque a Lei, assim como os Profetas, isto é, a Doutrina Universal da Fé com todas as suas cognições, consiste no amor ao Senhor e no amor para com o próximo, como a qualquer um é manifesto a partir das palavras do Senhor em Mateus (22:34 a 39), e em Marcos (12:28 a 35). [4] Mas a verdade é que os doutrinais, ou as cognições da fé, são muito necessários para a formação da vida da caridade, que, sem eles, não pode ser formada. É essa vida que salva depois da morte; sem essa vida não há vida da fé, porque sem a caridade não pode haver vida da fé. Os que estão na vida do amor e da caridade estão na vida do Senhor; ninguém pode estar conjunto ao Senhor por uma outra vida. Daí é ainda evidente que os veros da fé nunca podem ser reconhecidos como veros, isto é, não é possível ter o reconhecimento deles, de que se falou, só exteriormente e de boca, salvo se esses veros forem implantados na caridade. Com efeito, eles são negados interiormente, ou de coração, porque todos os veros, assim como se disse, têm como fim a caridade, e se a caridade não estiver neles, eles são interiormente rejeitados. Os interiores se mostram tais quais eles são quando os exteriores são retirados, o que acontece na outra vida, isto é, que eles se mostram absolutamente opostos a todos os veros da fé: Nunca é possível receber a vida da caridade, ou o amor mútuo, na outra vida, quando não se tem amor mútuo na vida do corpo, mas a vida do amor que se teve no mundo permanece depois da morte. Com efeito, tem-se em aversão e em ódio o amor mútuo, e quando se aproxima somente de uma sociedade em que reina a vida desse amor, treme-se, fica-se horrorizado e abatido de tormentos. [5] Os que são tais, apesar de nascidos dentro da igreja, são chamados ‘filhos estrangeiros’, ‘incircuncisos de coração’ e ‘incircuncisos de carne’, não podendo ser admitidos no santuário, isto é, no Reino do Senhor; esses tais são também designados em Ezequiel: “Nenhum filho estrangeiro, incircunciso de coração e incircunciso de carne entrará no Santuário” (44:7, 9); e no mesmo: “A quem semelhante te fizeste assim em glória e em grandeza entre as árvores do Éden? E far-te-ão descer com as árvores do Éden para a terra inferior, no meio dos incircuncisos te deitarás com os trespassados pela espada” (Ez. 31:18); onde se trata do faraó, pelo qual são significados os conhecimentos em geral (n. 1164, 1165, 1186, 1462); as ‘árvores do Éden’, com as quais eles devem descer para a terra inferior, significam também os conhecimentos, mas os conhecimentos das cognições da fé. Daí agora se vê com evidência o que é um ‘incircunciso’ no sentido interno, isto é, que é aquele que está nos amores impuros e na vida desses amores.