ac 2135

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

.
Livro de Gênesis
Décimo oitavo capítulo
Prefácio
No fim do capítulo precedente, tratou-se do Juízo Final e mostrou-se o que ele significa, isto é, que não é a destruição do mundo, mas o último tempo de uma igreja. Quando esse tempo está próximo, o Senhor diz que Ele deve vir nas nuvens dos céus com força e com glória (Mt. 24:30; Mc. 13:26; Lc. 21:27). Ninguém até agora soube o que se entende pelas ‘nuvens dos céus’, mas a mim foi desvendado que não se entende outra coisa senão o sentido literal da Palavra, e que por ‘força’ e ‘glória’ entende-se o sentido interno da Palavra. Com efeito, no sentido interno da Palavra está a glória, porque tudo que está neste sentido diz respeito ao Senhor e a Seu reino (vide a Primeira Parte n. 1769 ao 1772).
[2] A mesma coisa é significada pela nuvem que cercou Pedro, Tiago e João quando o Senhor lhes apareceu na glória; a este respeito se fala em Lucas:
“Uma voz se fez [ouvir] da nuvem, dizendo: Este é o Meu Filho dileto; a Ele ouvi. Quando, porém, se fez ouvir a voz, achou-se Jesus só” (9:35; 36);
aí, por Moisés e Elias, que conversavam com o Senhor, era representada a Palavra do Antigo Testamento, que é também chamada Moisés e os Profetas: por Moisés, os seus livros e também os livros históricos, pelo profeta Elias, todos os Livros Proféticos; mas Pedro, Tiago e João representavam a fé, a caridade e o bem da caridade, assim como eles os representavam em todas as outras passagens onde eles são nomeados nos livros dos evangelistas; e quanto ao fato de serem eles os únicos que lá estavam, isso significa que só os que estão na fé, na caridade e no bem é que podem ver a glória do Senhor, glória que está em Sua Palavra. Os outros podem ver, é verdade, mas é certo que eles não veem, porque não creem. Tal é o sentido interno quanto a essas duas passagens; nos Profetas também, aqui e ali, a nuvem significa a Palavra na letra, e a glória, a Palavra na vida.
[3] O que é o sentido interno da Palavra e qual ele é, é o que se disse em muitos lugares e que foi exposto quanto a cada palavra na Explicação82 . Do tempo do Senhor foram os Doutores da Lei que creram menos do que os outros que houvesse, na Palavra, alguma coisa escrita sobre o Senhor; hoje, é verdade, os doutores da lei o sabem, mas talvez eles creiam menos do que todos os outros, que há na Palavra uma outra glória além da que se mostra na letra, que, entretanto, é a nuvem em que está a glória.
* * * * * * *
Livro de Gênesis
Décimo oitavo capítulo
*2135. É sobretudo a partir deste capítulo que se pode ver qual é o sentido interno da Palavra e de que modo os anjos a percebem quando ela é lida pelo homem. Do sentido histórico da letra, tudo que se entende é que JEHOVAH apareceu a Abrahão sob a forma de três varões, e que Sarah, Abrahão e o seu menino prepararam para eles uma comida, a saber, de bolos de flor de farinha, de uma vitela, manteiga e leite. Ainda que esses fatos se passassem tais quais eles são historicamente descritos, a verdade é que eles não são percebidos assim pelos anjos; mas há para os anjos abstração completa da letra, e eles percebem as coisas que esses fatos representam e significam tais quais elas são expostas nos ‘Conteúdos’ dos capítulos, isto é, em vez do que é aqui contado historicamente, eles percebem os estados da percepção do Senhor no Humano e a comunicação que Ele teve então com o Divino antes da união perfeita de Sua Essência Divina com a Sua Essência Humana, e da Sua Essência Humana com a Sua Essência Divina. É também a respeito desse estado que o Senhor disse:
“A Deus ninguém jamais viu, o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, Ele [O] expôs” (João, 1:18);
[2] e pela ‘comida’, de que se faz menção neste capítulo, os anjos percebem unicamente os bens celestes e espirituais de que se falará na Explicação, e em seguida, no que se diz a respeito do ‘Filho a que Sarah devia dar à luz [pareret] no tempo fixado do ano seguinte’, eles não percebem outra coisa senão que o Racional Humano do Senhor se tornaria Divino. Enfim, pela ‘conversação que Abrahão teve com JEHOVAH sobre a destruição de Sodoma e de Gomorra’, eles perceberam unicamente a intercessão do Senhor pelo gênero humano; e aí, por ‘cinquenta’, ‘quarenta e cinco’, ‘quarenta’, ‘trinta’, ‘vinte’ e ‘dez’, a intercessão por aqueles com quem os veros seriam adjuntos aos bens e por aqueles com os quais haveria bens pelas tentações e combates ou por outros estados. É o que acontece com todas as outras coisas da Palavra, como se pode ver ainda melhor na explicação de cada uma das palavras, onde se mostrou que cada vocábulo guarda semelhantes coisas na Palavra tanto Histórica como Profética.
[3] Que há em toda a parte na Palavra um tal sentido interno, no qual somente se trata do Senhor, de Seu reino nos céus, de Sua igreja nas terras e em particular em cada homem, por conseguinte, dos bens do amor e dos veros da fé, é também o que cada um pode ver claramente pelo que é citado do Antigo Testamento nos Evangelistas; por exemplo, em Mateus:
“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos [por] escabelo dos teus pés” (22:42 [Em JFA, 22:44]; Sl. 110:1).
Em Davi, no lugar citado, não parece, pelo sentido da letra, que essas palavras se aplicam ao Senhor; contudo, o Senhor ensina nesse Evangelista que ali só se trata d’Ele mesmo.
[4] No mesmo Evangelista:
“Tu Belém, terra de Judá, de modo algum és mínima dentre os condutores de Judá; de ti, pois, sairá o Condutor que apascentará o meu povo, Israel” (Mt. 2:6; e em Mq. 5:1 [Em JFA, 5:2]).
Os que permanecem no sentido da letra, como os judeus, sabem, é verdade, por essa passagem, que o Senhor nascerá ali; mas como eles aguardam um condutor e um rei que os reconduzirá à terra de Canaã, eles, em consequência, explicam essas palavras segundo a letra, isto é, que eles entendem pela ‘terra de Judá’ a terra de Canaã, por ‘Israel’ também Israel, ainda que ignorem onde está, e por um ‘Condutor’ eles entendem o seu messias; quando a verdade é que se deve entender outra coisa por Judá e por Israel, a saber por Judá os homens celestes, por Israel os homens espirituais no céu e na terra, e por ‘um Condutor’, o Senhor.
[5] No mesmo:
“Uma voz foi ouvida em Ramah, lamentação, clamor e muitos gemidos. Raquel chorando os seus filhos, e não queria receber consolação, porque [já] não são” (Mt. 2:18; Jr. 31:15).
Os que ficam no sentido literal não pegam de modo algum daí esse sentido que é o interno dessas mesmas palavras; que entretanto este exista, vê-se nos Evangelistas. No mesmo:
“Do Egito chamei o meu filho” (Mt. 2:15; Os. 11:1).
Eis o que se diz neste Profeta:
“Quando Israel [era] menino, e [eu] o amei, e do Egito chamei o meu filho; chamaram-vos, assim partiram das faces deles; e Eu fiz andar Efraim” (Os. 11:1, 2, 3).
Os que ignoram que existe um sentido interno não podem saber outra coisa a não ser que se entende aqui Jacó quando entrou no Egito e os seus pósteros quando de lá saíram, e que por Efraim se entende a tribo de Efraim, por conseguinte, essas mesmas coisas que são referidas nos históricos da Palavra; contudo, é claro, segundo a Palavra do Evangelista, que essas coisas significam o Senhor. No entanto, o que cada expressão significa, é o que nunca se poderia saber se isso não fosse posto a descoberto por meio do sentido interno.
* * * * * * *

Versão impressa (opcional)

Para estudo mais confortável, você pode adquirir esta obra em formato impresso: ver orientações.