. Que ‘lavai os vossos pés’ signifique que Ele revestisse algum natural a fim de que o Senhor, nesse estado em que Ele se achava então, percebesse melhor, é o que se vê pela significação dos ‘pés’, que são as coisas naturais, e igualmente da série das coisas. Que aqui estão ocultos arcanos, é o que se pode entender no fato que Abrahão pediu aos três varões que tomassem um pouco d’água, lavassem seus pés e se deitassem debaixo da árvore, quando, entretanto, ele sabia que era o Senhor, ou JEHOVAH, e também no fato que, de outro modo, tais pormenores não teriam sido narrados. [2] Que os ‘pés’ signifiquem as coisas naturais, é o que pode ser evidente pelos representativos na outra vida e, por conseguinte, pelas coisas representativas entre os antiquíssimos e, assim, na Palavra. As coisas celestes e espirituais são representadas pela cabeça e por tudo que pertence à cabeça; as coisas racionais e o que pertence às coisas racionais, pelo peito e pelo que depende do peito; as naturais e o que pertence às naturais, pelos pés e pelo que depende dos pés; é daí que a sola dos pés e o calcanhar significam as coisas naturais ínfimas (n. 259), e que o sapato significa as mais ínfimas de todas as coisas naturais, que estão repletas de imundícies (n. 1748). [3] As coisas que foram representativas em sonhos e visões entre os profetas tinham semelhantes significações; por exemplo, a estátua que Nabucodonosor viu, e cuja cabeça era de ouro puro [bonum]; o peito e os braços, de prata; o ventre e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro, os pés, em parte de ferro e em parte de barro (Dn. 2:32, 33); nessa passagem, a ‘cabeça’ significa as coisas celestes, que são as íntimas e são o ouro, como se explicou (n. 113, 1551, 1552); o ‘peito’ e os ‘braços’ significam as coisas espirituais, ou as racionais, que são a prata, como se viu (n. 1551); mas os ‘pés’ significam as coisas inferiores, que são os naturais cujos veros são significados pelo ferro, e os bens, pela argila, ou o barro. Viu-se que o ferro é o vero (n. 425, 426), e que o barro é o bem (n. 1300); aqui, um e outro são naturais. É também desse modo que eles se sucedem no Reino do Senhor nos céus e na igreja, que é o Reino do Senhor nas terras, e, enfim, em qualquer um que é o Reino do Senhor. [4] O mesmo sucede com a visão que teve Daniel e de que ele fala assim: “Ergui meus olhos e vi; e eis um varão vestido de linho, e os seus lombos [estavam] cingidos de ouro de Ufaz; e o corpo [estava] como Társis, e a face dele como o aspecto do relâmpago, e os seus olhos como as lâmpadas de fogo, e os braços e os pés como o brilho do latão polido” (Dn. 10:5, 6). Por essas coisas são especificamente significados os interiores da Palavra quanto aos bens e aos veros; os braços e os pés são os seus exteriores, que são o sentido da letra, porque os bens e os veros naturais estão nesses exteriores, porque são tirados dos naturais. Além disso, a significação de cada coisa, a saber, dos lombos, do corpo, das faces, dos olhos e de muitas outras partes que estão no homem, pode ser verificada pelos representativos na outra vida. Pela Divina Misericórdia do Senhor, falar-se-á a esse respeito quando se tratar do ‘Máximo Homem’, que é o céu do Senhor, assim como dos Representativos que daí procedem no mundo dos espíritos. [5] O que se lê “sobre Moisés, Aharão, Nadab, Abihu, e os setenta anciãos que viram o Deus de Israel, sob cujos pés estava como uma obra de pedra safira, e como a substância do céu quanto à pureza” (Êx. 24:9, 10), significa que eles viram somente as coisas externas da igreja representadas nas coisas naturais; e também o sentido literal da Palavra, no qual os externos são também representados pelas coisas naturais que, assim como se disse, são ‘os pés debaixo dos quais havia como uma obra de pedra safira e como a substância do céu’. É evidente que foi o Senhor que eles viram, mas somente nessas coisas inferiores, ou nessas coisas naturais, porque Ele é chamado o Deus de Israel, Que todas as coisas da igreja representavam e Que todas as da Palavra, no sentido interno, significavam. De fato, o Senhor Se torna visível conforme as coisas que são então significadas; por exemplo, em João Ele Se mostra como um homem sobre um cavalo branco, e ali se diz, em termos claros, que ele significava a Palavra (Ap. 19:11, 13). [6] Os animais que Ezequiel viu, e que eram querubins, são descritos quanto às coisas celestes e espirituais pelas faces, pelas asas, assim como por muitas outras coisas; mas quanto às coisas naturais, eles o são assim: “Os pés deles, pés corretos, e a planta dos pés deles [eram] como a planta do pé de um bezerro, e brilhavam como o esplendor do latão polido” (Ez. 1:7); que dos pés, isto é, das coisas naturais, se diz brilhar como latão polido, é porque o latão [ou cobre] significa o bem natural, como se disse (n. 425, 1551). O mesmo aconteceu quando Ele apareceu a João “como o Filho do Homem, cujos olhos eram como chama de fogo, e os pés semelhantes a latão fino” (Ap. 1:14, 15; 2:18). [7] Que os pés signifiquem as coisas naturais, é ainda o que se vê claramente pelas passagens seguintes: Em João: “Vi um anjo forte descendo do céu, cercado por uma nuvem, e [havia] um arco-íris ao redor da sua cabeça, e a face dele [era] como o Sol, e os pés dele como coluna de fogo, tendo na sua mão um pequeno livro aberto, e pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra” (Ap. 10:1, 2); esse ‘anjo’ significa igualmente a Palavra, o ‘arco-íris ao redor de sua cabeça’ e ‘a sua face como o Sol’ designam a Palavra tal qual ela é no sentido interno; mas o sentido externo, ou da letra, é significado pelos pés; o ‘mar’ designa os veros naturais, a ‘terra’, os bens naturais, de onde se vê o que significa o ‘pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra’. [8] Na Palavra, faz-se aqui e ali menção do ‘escabelo dos pés’, mas ignora-se o que ele significa no sentido interno, como em Isaías: “Disse JEHOVAH: Os céus [são] os Meus tronos e a terra o escabelo dos Meus pés; onde [estará] essa casa que edificareis a Mim, e onde [estará] o lugar do Meu descanso?” (66:1); os ‘céus’ são as coisas celestes e espirituais, por conseguinte, as íntimas, tanto do Reino do Senhor nos céus como do Reino do Senhor nas terras, ou na igreja, assim como em todo o homem que é o Reino do Senhor, ou a igreja; por conseguinte, também as coisas celestes e espirituais, que pertencem ao amor e à caridade e, por conseguinte, à fé, consideradas em si mesmas; assim, tudo que pertence ao culto interno e igualmente tudo que pertence ao sentido interno da Palavra. São esses os céus, e eles são chamados o Trono do Senhor; mas a ‘terra’ são todas as coisas inferiores que correspondem às coisas celestes e espirituais, como são as racionais inferiores e as naturais, que, em razão da correspondência, se dizem também celestes e espirituais tais como as que estão nos céus inferiores, na igreja, no culto externo, no sentido literal da Palavra e, em uma palavra, em tudo que procede das coisas internas e se fixa nas externas. Como todas essas coisas são naturais, elas são chamadas ‘terra’ e ‘escabelo dos pés do Senhor’. (Pode-se ver também o que é o céu e a terra no sentido interno no n. 82, 1733; o que é o ‘novo céu’ e a ‘nova terra’, n. 2117, 2118 no fim; e que o homem é um pequeno céu n. 914, 978, 1900.) [9] Do mesmo modo em Jeremias: “Da sua ira o Senhor cobriu de nuvens a filha de Sião e fez lançar dos céus na terra o ornamento de Israel, e não se lembrou do escabelo dos Seus pés no dia da Sua ira” (Lm. 2:1). Do mesmo modo também em Davi: “Exaltai JEHOVAH, nosso DEUS, e inclinai-vos diante do escabelo dos pés d’Ele, [pois] Santo Ele [é]” (Sl. 99:5). Em outra parte, no mesmo: “Entraremos nos habitáculos d’Ele, inclinar-nos-emos diante do escabelo dos Seus pés” (Sl. 132:7). Pensava-se, na Igreja Representativa, por conseguinte, os judeus pensavam que a casa de Deus e o templo eram o escabelo de seus pés; eles não sabiam que pela ‘casa de Deus’ e pelo ‘templo’ era significado o culto representativo externo; eles ignoravam absolutamente o que eram os internos da igreja, que eram significados pelo céu ou o trono de Deus. [10] No mesmo: “Dito de JEHOVAH ao meu Senhor: Assenta-Te à Minha direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl. 110:1; Mt. 22:42 [Em JFA, 22:44]; Mc. 12:36; Lc. 20:42, 43); Aqui, pelo escabelo dos pés, são igualmente significadas as coisas naturais, tanto as dos sentidos como as dos conhecimentos e, por conseguinte, as coisas racionais do homem, que são chamadas ‘inimigos’ quando pervertem o culto, e isso pelo sentido literal da Palavra, de sorte que o culto está somente nos externos e que não há culto interno ou que ele é corrompido (n. 1094, 1175, 1182). Quando essas coisas naturais foram assim pervertidas e corrompidas, elas são chamadas inimigos; mas como, consideradas em si mesmas, elas se referem ao culto interno, quando esse culto é restabelecido elas se tornam, assim como já se disse, tanto as que pertencem ao culto externo quanto as que pertencem ao sentido literal da Palavra, o escabelo dos pés. [11] Em Isaías: “A glória do Líbano virá a Ti; a faia, o pinheiro e o buxo juntamente, para ornarem o lugar do meu Santuário, e farei honroso o lugar dos meus pés” (60:13); aí se trata do Reino do Senhor e da igreja, cujas coisas celestes espirituais são ‘a glória do Líbano’, ou ‘os cedros’, mas as celestes naturais são ‘a faia’, ‘o pinheiro’, ‘o buxo’, como eles o são também em outras passagens da Palavra; assim, são as coisas externas do culto, de que se diz, “honroso farei o lugar de meus pés”; não é pela faia, o pinheiro, o buxo que esse lugar pode se tornar honroso, mas é pelas coisas que essas árvores significam. [12] Que os pés tinham essa significação é ainda o que se vê pelos representativos na Igreja Judaica, por exemplo, no fato que “Aharão e seus filhos lavavam as suas mãos e os pés antes de entrarem no Tabernáculo” (Êx. 30:19, 20; 40:31, 32). Ninguém há que não possa ver que isso representava arcanos; de fato, que podia ser a ação de lavar as mãos e os pés senão alguma coisa de externo que para nada serve se o interno não está limpo nem puro, e não é por esse ato que o interno pode ser limpo e purificado; mas como todos os ritos dessa igreja significam a purificação do culto externo, que se torna puro quando no externo há o interno, é daí que as suas bacias eram de cobre como também essa grande bacia denominada o ‘mar de bronze’, e as dez bacias menores de cobre que estavam ao redor do templo de Salomão (1 Reis, 7:23, 38), porque o cobre representava o bem do culto externo, que é a mesma coisa que o bem natural. (Ver sobre essa significação do cobre nos n. 425, 1551.) [13] Havia um igual representativo em que “o varão que era da semente de Aharão e que tinha uma fratura no pé ou uma fratura na mão não devia se aproximar para oferecer ignições a JEHOVAH” (Lv. 21:19, 21). Os que tinham fraturas nos pés e nas mãos representavam os que estão em um culto externo pervertido. [14] Que os pés signifiquem as coisas naturais, é o que se vê aqui e ali nos Profetas; por exemplo, em Moisés: “Bendito mais do que os filhos [será] Aser, seja agradável aos seus irmãos, e mergulhe no azeite o seu pé. De ferro e de cobre [será] o teu sapato; ...” (Dt. 33:24, 25); seja quem for não compreenderá essas palavras exceto se souber o que, no sentido interno, significam o ‘azeite’, o ‘pé’, o ‘ferro’, o ‘cobre’, o ‘sapato’; pode-se ver que o ‘pé’ é o natural, e o ‘sapato’, um natural mais baixo, como é o sensual corporal (n. 1748); que o ‘azeite’ é o celeste (n. 886); o ‘ferro’, o vero natural (n. 425, 426); e o ‘cobre’, o bem natural (n. 425, 1551); por esse modo se vê claramente o que essa passagem envolve. [15] Em Naum: “O caminho de JEHOVAH [está] na procela e na tempestade, e a nuvem [é] o pó dos pés d’Ele” (1:3); onde o ‘pó dos pés’ significa as coisas naturais e corporais que estão no homem e das quais provém a nuvem. A mesma coisa é ainda significada em Davi por estas palavras: “JEHOVAH inclinou os céus e desceu, e a escuridão [estava] debaixo dos pés d’Ele” (Sl. 18:10 [Em JFA, 18:9]). [16] Quando os bens e os veros da fé são pervertidos pela luz natural, assim como ela é chamada, essa luz é descrita na Palavra pelos pés e as unhas da besta, pelas quais as águas são turvadas e as comidas são pisadas, como em Ezequiel: “[...] avançaste nos rios e turvaste as águas com os teus pés, e pisaste as águas deles. [...] Destruirei toda sua besta de cima das suas águas numerosas, e não as turvará o pé do homem mais, nem a unha da besta” (32:2, 13); aqui se trata do Egito, pelo qual são significados os conhecimentos, como se mostrou (n. 1164, 1165, 1462). Assim, os ‘pés’ e as ‘unhas’, pelos quais os rios e as águas são turvados, significam as coisas do conhecimento provenientes das coisas dos sentidos e das naturais pelas quais se raciocina sobre os arcanos da fé e não se crê antes de se ter compreendido por meio das coisas da ciência, o que faz com que não se creia jamais, porque quanto mais se raciocina desse modo, tanto menos se crê. (Ver o que se disse nos n. 128, 129, 130, 215, 232, 233, 1072, 1385.) De tudo o que precede, é, pois, evidente que, na Palavra, os ‘pés’ significam as coisas naturais; mas quanto ao que é significado além disso, vê-se claramente pela série das coisas.