Texto
. ‘Tomarei um bocado de pão’; que signifique algum celeste adjunto, é o que se vê pela significação do ‘pão’, que é o celeste, como se disse (n. 276, 680, 681, 1798). Que o ‘pão’ signifique o celeste, é porque o pão significa, em geral, toda comida, por conseguinte, no sentido interno, toda comida celeste. Na Primeira Parte (n. 56, 57, 58, 680, 681, 1480, 1695), foi dito o que é a comida celeste. Que o ‘pão’ signifique, em geral, toda a comida, é o que se pode ver por estas passagens da Palavra. Lê-se a respeito de José: “que ele disse a quem tinha o cuidado de sua casa para conduzir os homens, isto é, seus irmãos, a casa, que matassem os animais e os preparassem; e depois, quando tudo foi preparado e que iam comer, ele disse: Ponde pão!” (Gn. 43:16, 31), o que era [dizer] que preparassem a mesa; assim, o ‘pão’ está no lugar de todas as comidas. Lê-se a respeito de Jethro: “que Aharão veio com todos os anciãos de Israel para comer pão com o sogro de Moisés perante Deus” (Êx. 18:12); ali também o pão designa todas as comidas. Diz-se a respeito de Manoá, no Livro dos Juízes:
“Disse Manoá ao Anjo de JEHOVAH: [Que nós] Te detenhamos, peço, e preparemos diante de Ti o cabritinho das cabras. E disse o Anjo de JEHOVAH a Manoá: Se Me detiveres, Eu não comerei o teu pão, [...]” (13:15, 16);
aí o ‘pão’ está no lugar do ‘cabritinho das cabras’. Quando Jonathan comeu o favo de mel, disseram-lhe que Saul tinha feito jurar ao povo, dizendo: Maldito o homem que comer o pão hoje” (1Sm. 14:27, 28); onde o pão significa toda comida. Em outra passagem se diz de Saul:
“Quando Saul se assentou para comer o pão... disse a Jonathan: Por que o filho de Jessé não veio nem ontem nem hoje para o pão? (1Sm. 20:24, 27);
isto é, à mesa, onde havia comidas de todo gênero. Acerca de Davi, que disse a Mefibosete, filho de Jonathan: “Tu, comerás o pão sobre a minha mesa juntamente” (2Sm. 9:7, 10); acontece o mesmo com Evil-Merodaque, que disse que Jeoaquim, rei de Judá, comeria o pão junto, diante dele, todos os dias de sua vida (2Rs. 25:29). Fala-se assim a respeito de Salomão:
“Havia para o pão de Salomão, cada dia, trinta coros de flor de farinha e sessenta coros de farinha, dez bois cevados e vinte bois das pastagens e cem carneiros, além do cervo e da cabra e do cabrito-montês, e os galos cevados” (1Rs. 5:2, 3 [Em JFA, 4:22, 23]);
onde se vê claramente que o pão é tomado por todas essas coisas.
[2] Ora, como o pão significa, em geral, todos as comidas, daí resulta que ele significa, no sentido interno, todas as coisas que são chamadas comidas celestes. É o que se pode ver ainda melhor pelos holocaustos e sacrifícios que se faziam de cordeiros, bois, cabras, cabritinhos, cabritos, touros, vitelas, que, em uma só palavra, eram chamados o ‘Pão da Ignição a JEHOVAH’, como é evidente por estas passagens em Moisés em que se trata dos diferentes sacrifícios; ele diz desses sacrifícios: “que o Sacerdote os queimará sobre o altar; (será) o Pão da Ignição a JEHOVAH como cheiro de repouso” (Lv. 3:11, 16); todos esses sacrifícios e esses holocaustos eram assim chamados. No mesmo:
“Os filhos de Aharão serão santos a seu Deus, e não profanarão o nome de seu Deus, porque [são] eles que oferecem as Ignições a JEHOVAH, o Pão de teu Deus... a respeito da semente de Aharão... na qual tiver havido mancha, não se aproximará para oferecer o Pão do seu Deus” (Lv. 21:6, 8, 17, 21);
onde também os sacrifícios e holocaustos são o pão, como também em Lv. 22:25. Em outra passagem:
“Manda aos filhos de Israel e dize-lhes: A minha oblação, o meu pão, nas ignições de cheiro e repouso, observareis, para o oferecer a Mim em seu tempo estabelecido” (Nm. 28:2);
aí também o pão está por todos os sacrifícios que ali estão recenseados. Em Malaquias:
“Vós ofereceis sobre o meu altar um pão manchado” (1:7);
onde também se trata dos sacrifícios. As coisas santificadas pelos sacrifícios e que se comiam eram do mesmo modo chamadas ‘pão’, como se vê por estas palavras em Moisés:
“Quem tiver tocado alguma coisa imunda não comerá coisas santificadas antes que tenha lavado a sua carne na água e que o Sol se deite; [então] ele será puro e depois comerá coisas santificadas, porque isso [é] seu pão” (Lv. 22:6, 7).
[3] Os holocaustos e os sacrifícios, na Igreja Judaica, não representavam outra coisa senão as coisas celestes que pertencem ao Reino do Senhor nos céus e ao Reino do Senhor nas terras (ou seja, na igreja), assim como as que pertencem ao Reino do Senhor (ou à igreja) em cada um. Em geral representavam todas as coisas que pertencem ao amor e à caridade, porque essas coisas são celestes; e cada gênero de sacrifício representava alguma peculiaridade. No tempo dessa igreja, todas essas coisas se chamavam pão; por isso, quando os sacrifícios eram abolidos e que em seu lugar sucediam outras cerimônias para o culto externo, ordenou-se que se empregasse o pão e o vinho.
[4] Pode-se, pois, ver agora o que o ‘pão’ significa, a saber, todas as coisas que os sacrifícios representavam, assim, no sentido interno, o Senhor mesmo; e como ele significava o Senhor mesmo, ele significava o amor mesmo para com todo o gênero humano e o que pertence ao amor, como também o amor recíproco do homem ao Senhor e para com o próximo. Sendo assim, o pão significava todas as coisas celestes e, daí, o vinho, todas as coisas espirituais; é também o que o Senhor ensina em termos claros, em João:
“Disseram: Os nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o Pão do céu. Disse-lhes Jesus: Amém, amém, vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas Meu Pai vos dá o pão do céu, [o] verdadeiro; porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo. [Eles] disseram a Ele: Senhor, sempre nos dá deste pão. Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da vida, quem vem a Mim não terá fome e quem crê em Mim não terá sede jamais” (6:31–35).
E no mesmo:
“Amém, vos digo: Quem crê em Mim tem a vida eterna; Eu sou o pão da vida, os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram; este é o pão que desceu do céu a fim de que aquele que o comer não morra. Eu sou o Pão vivente que do céu desceu; se alguém comer desse Pão viverá na eternidade” (João, 6:47–51).
[5] Ora, pois, se o Pão é o Senhor, ele pertencia às coisas celestes que pertencem ao amor e são do Senhor, porque o Senhor é o celeste mesmo, porque Ele é o Amor mesmo, isto é, a Misericórdia mesma; e por ser assim, o pão é ainda todo celeste, isto é, todo amor e caridade no homem, porque o amor e a caridade procedem do Senhor; por isso os que não estão no amor nem na caridade não têm o Senhor com eles. Por conseguinte, eles não são dotados dos bens e das felicidades que são significados, no sentido interno, pelo pão. Esse simbólico [ou simbolismo] externo foi prescrito porque a maior parte do gênero humano está no culto externo. Por isso, caso não houvesse [simbolismo] externo algum, muito dificilmente existiria entre eles alguma coisa santa. Quando, portanto, eles vivem no amor ao Senhor e na caridade para com o próximo, eles têm sempre consigo o interno, ainda que não saibam que é esse o interno mesmo do culto. Assim, em seu culto externo eles são confirmados nos bens que são significados pelo pão.
[6] Nos Profetas, o pão também significa as coisas celestes que pertencem ao amor; por exemplo, em Isaías, 3:1, 7; 30:23; 33:15, 16; 55:2; 58:7, 8; Lamentações, 5:9; Ezequiel, 4:16, 17; 5:16; 14:13; Amós, 4:6; 8:11; Salmo 105:16. O mesmo sucede com os ‘Pães das Faces’ sobre a mesa, dos quais se fala (Lv. 24:5–9; Êx. 25:30; 40:23; Nm. 4:7; 1Rs. 8:48).