ac 2177

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Que ‘flor de farinha’ seja o espiritual e celeste do Racional que estava então no Senhor, e ‘bolos’ signifique semelhantemente o espiritual e o celeste quando um e outro foram conjuntos, consta manifestamente pelos sacrifícios da Igreja Representativa e pela minchah que a eles se agregava então e que consistia em fina farinha misturada com azeite e feita em bolos; o principal do culto representativo consistia em holocaustos e em sacrifícios. Já foi dito, onde se tratou do pão (n. 2165), o que eles representavam, a saber, as coisas celestes que pertencem ao Reino do Senhor nos céus e ao Reino do Senhor nas terras, ou na igreja, e as que pertencem ao Reino do Senhor, ou à igreja, em cada um. Em geral representavam todas as coisas que pertencem ao amor e à caridade, porque essas coisas são celestes, todas essas coisas nessa época eram chamadas pão; a esses sacrifícios também se acrescenta a minchah, que consistia, como se disse, em fina farinha misturada com azeite, ao que se ajuntava ainda incenso, assim como uma libação de vinho.
[2] Pode-se ver também o que esses objetos representavam, isto é, que eles representavam as mesmas coisas que os sacrifícios, mas em um menor grau, por conseguinte, as coisas que pertencem à igreja espiritual e as que pertencem à igreja externa. Deve ser evidente para qualquer um que tais práticas nunca teriam sido ordenadas se não tivessem representado coisas Divinas e se cada objeto não tivesse representado alguma coisa particular. Com efeito, se elas não tivessem representado coisas Divinas, elas teriam sido apenas semelhantes às práticas dos gentios, entre os quais havia igualmente sacrifícios, bolos, libações, incenso e até fogos perpétuos, assim como muitos outros ritos que, da Igreja Antiga e, sobretudo, da Igreja Hebraica, passaram para eles; e como de seus ritos estavam separados os internos, isto é, as coisas Divinas que eram representadas, esses ritos eram meramente idolátricos, como vieram a ser até entre os judeus, por isso estes caíram também em todos os gêneros de idolatria. Daí pode ficar patente para cada um que havia arcanos celestes em cada rito, principalmente nos sacrifícios e em cada parte dos sacrifícios.
[3] Quanto ao que se refere à ‘minchah’, ela é descrita tal qual era, e a sua preparação em bolos é dada em Moisés, em todo o segundo capítulo do Levítico, assim como no capítulo 15 dos Números e em outros lugares. A lei da minchah é descrita no Levítico, nestes termos:
“O fogo estará continuamente aceso sobre o altar; ele não se apagará. E eis a lei da minchah: Cumpre aos filhos de Aharão trazê-la perante JEHOVAH para as faces do altar. E tomará um punhado da fina farinha da minchah e seu azeite, e todo o incenso que [estiver] sobre a minchah, e [os] queimará sobre o altar; [é] o cheiro de repouso em memorial a JEHOVAH. E Aharão e seus filhos comerão o que restar; os ázimos serão comidos no lugar santo; eles o comerão no átrio da tenda da convenção. Não será cozido com fermento; dei-o para sua parte de minhas ignições; ele é o santo dos santos, [...]” (6:6–10 [Em JFA, 6:13–17]).
[4] O ‘fogo que será continuamente aceso sobre o altar’ representava o amor, isto é, a misericórdia perpétua e eterna do Senhor. Que o ‘fogo’, na Palavra, significa o amor, foi visto (n. 934); daí as ‘ignições em cheiro de repouso’ significam o beneplácito do Senhor nas coisas que pertencem ao amor e à caridade. Que o ‘cheiro’ seja o beneplácito, isto é, o que é agradável, viu-se (n. 925, 1519); ‘tomar um punhado’ representava que se devia amar de todas as suas forças ou de toda sua alma, porque a mão, ou a palma da mão, significa o poder, como se mostrou (n. 878); daí o ‘punho’ significa também o poder. A ‘fina flor de farinha, com o azeite e o incenso’ representavam tudo que pertence à caridade; a ‘fina flor de farinha’ representava o seu espiritual; o ‘azeite’, o celeste; o ‘incenso’, o que deste modo é agradável. Que a farinha signifique o espiritual, vê-se pelo que acaba de ser dito e pelo que segue, que o ‘azeite’ seja o celeste, ou o bem da caridade, n. 925.
[5] Era um bolo ázimo, ou não fermentado, para significar o sincero, por conseguinte, o que vem de um coração sincero e sem manchas. Quanto a que ‘Aharão e seus filhos comiam o que restava’, isso representava o recíproco do homem e a apropriação, por conseguinte, a conjunção pelo amor e pela caridade, por isso se ordenava que o comessem no lugar santo; e daí é que a minchah é chamada ‘o santo dos santos’. São essas as coisas que foram representadas pela minchah, e os representativos mesmos eram assim percebidos no céu; e quando o homem da igreja os compreendia desse modo, ele estava em uma ideia semelhante à percepção dos anjos, por conseguinte, no próprio Reino do Senhor nos céus, ainda que ele estivesse sobre a terra.
[6] Trata-se, além disso, da minchah tal qual devia ser para cada gênero de sacrifícios, e de que modo devia ser cozida em bolos, como também que a minchah seria oferecida pelos que se purificavam, e até em outras ocasiões. Seria demasiado longo relatar e explicar todas essas coisas, pode-se dizer o que se diz a respeito em Êx. 29:39, 40, 41; Lv. 5:11, 12, 13; 6:9, 10, 12, 13, 14; 10:12, 13; 23:10, 11, 12, 13, 16, 17; Nm. 5:15 e seguintes, 6:15, 16, 17, 19, 20; 7: aqui e ali; 28:5, 7, 9, 12, 13, 20, 21, 28, 29; 29:3, 4, 9, 10, 14, 15, 18, 21, 24, 27, 30, 33, 37.
[7] A fina farinha feita em bolos representava, em geral, a mesma coisa que o pão, a saber, o celeste do amor, como se pode ver pelas passagens já referidas. Os pães, que eram chamados o ‘pão das faces’, ou o ‘pão da proposição’, faziam-se de fina farinha preparada em bolos, e eles eram postos na mesa como representações do amor, isto é, da misericórdia do Senhor para com todo o gênero humano, e como representação do recíproco do homem. Disso se fala assim em Moisés:
“Tomarás fina farinha e cozê-la-ás em doze bolos; de dois décimos será cada bolo; e pô-la-ás em duas filas, seis por fila sobre a mesa limpa diante de JEHOVAH, e porás sobre (cada) fila incenso puro; e haverá para os Pães, como memorial, uma ignição a JEHOVAH. Em cada dia do Shabbath, pô-lo-á em fila diante de JEHOVAH continuamente, de parte dos filhos de Israel, como aliança de eternidade. E será para Aharão e os filhos dele, e comê-lo-ão no lugar santo, porque [será] para ele a santidade das santidades, dentre as ignições a JEHOVAH, por um estatuto de eternidade” (Lv. 24:5–9).
Cada uma dessas coisas e as suas menores particularidades representavam a santidade do amor e da caridade, e a própria fina farinha [similago] a mesma coisa que a flor de farinha [farina similaginis], a saber, o celeste e o seu espiritual, e os bolos, um e a outra conjuntos.
[8] Por este modo, vê-se qual é a santidade da Palavra para os que estão nas ideias celestes, e até que santidade havia nesse rito representativo. Daí vem que ele é chamado a santidade das santidades; e reciprocamente se vê que a santidade é nula para os que consideram que esses ritos nada envolvam de celeste, e que permanecem somente nos externos, por exemplo, para os que percebem aqui a farinha como simplesmente farinha, a fina farinha como fina farinha, e os bolos como bolos, e que creriam que essas coisas teriam sido ditas, sem que cada uma guardasse alguma coisa de Divino. Eles fazem a mesma coisa que os que pensam que o pão e o vinho da Santa Ceia são meramente um certo rito no qual não há interiormente santidade, quando há, entretanto, uma tal santidade, que as mentes humanas, por meio dessa Ceia, são conjuntas às mentes celestes quando os homens pensam, a partir de uma afeição interna, que esse pão e esse vinho significam o amor do Senhor e o amor recíproco do homem, e quando eles estão assim pelo interior na santidade.
[9] A mesma coisa estava encerrada na ordem que receberam os filhos de Israel de darem em oferta alçada a JEHOVAH um ‘bolo’ das primícias da mesa quando tivessem entrado na terra de Canaã85 (Nm. 15:20). Que sejam essas as coisas que são significadas, é o que se pode ainda ver nos Profetas; bastará, por enquanto, referir o que se lê em Ezequiel:
“Ornada foste de ouro e prata, e a tua vestimenta [era] de fino linho e de seda, e de bordado; fina farinha, mel, azeite, comerás, e te tornaste muito formosa, e prosperarás até reinar” (16:13);
onde se trata de Jerusalém, pela qual é significada a igreja, que, em seu primeiro tempo, foi em semelhante ornamento, a saber, a Igreja Antiga, que é descrita pelas vestimentas e por muitos ornatos; depois as suas afeições do vero e do bem são descritas: a fina farinha, o mel e o azeite. Qualquer um pode ver que todas essas expressões significam, no sentido interno, coisas absolutamente diferentes das do sentido da letra, o mesmo acontece com estas palavras de Abrahão a Sarah: “Depressa toma três medidas de flor de farinha, amassa e faz bolos”. Ora, ‘três’ significa as santidades, como se mostrou (n. 720, 901).

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