Texto
. ‘Tomou manteiga e leite e o filho do boi que preparara’; que signifique todas essas coisas assim conjuntas, é o que se pode ver pela significação da ‘manteiga’, do ‘leite’ e do ‘filho do boi’, dos quais se vai tratar. Nos versículos que precedem, tratou-se do Racional do Senhor, que Ele foi instruído pelo celeste e daí pelo espiritual, que foram significados pela flor de farinha feita em bolo (n. 2176, 2177); depois se tratou do celeste natural, que foi significado pelo filho do boi (n. 2180); agora, as mesmas coisas são expressas por outras palavras, a saber, pela ‘manteiga’, o ‘leite’ e o ‘filho do boi’, os quais significavam todas essas coisas conjuntas.
[2] Contudo, é difícil pôr isso ao alcance do entendimento comum [vulgarem], porque em geral se ignora que em cada homem há um interno, um racional e um natural, e que esses três são distintíssimos entre si, e até tão distintos, que um pode estar em desacordo com o outro; assim, o racional, que se chama homem racional, pode diferir do natural, que se chama homem natural, ao ponto mesmo que o homem racional pode ver e perceber o mal que está no homem natural e castigá-lo se o racional for genuíno (n. 1904). Antes que o racional e o natural sejam conjuntos, o homem não pode ser um homem inteiro nem usufruir da tranquilidade da paz, porque um combate contra o outro. De fato, os anjos que estão com o homem governam o seu racional, enquanto os maus espíritos que estão com esse mesmo homem governam o natural, daí resulta um combate.
[3] Se então o racional for vencedor, o natural é subjugado e o homem é assim dotado da consciência; mas se o natural for vencedor, o homem então nada pode receber do que pertence à consciência; se o racional for vencedor, o seu natural se torna então como se fosse racional; mas se o natural for vencedor, o racional se torna então como se fosse natural. Além disso, se o racional é vencedor, então os anjos se aproximam mais perto do homem e nele insinuam a caridade, que é o celeste procedente do Senhor pelos anjos, e então os maus espíritos se afastam a uma certa distância; mas se o natural for vencedor, então os anjos se afastam mais, isto é, se recolhem mais adiante para os seus interiores, enquanto os maus espíritos se aproximam mais perto para o racional, o combatem continuamente e enchem os seus inferiores de ódios, vinganças, dolos e males semelhantes. Se o racional for vencedor, então o homem entra na tranquilidade da paz e, na outra vida, na paz do céu; mas se o natural for vencedor, então, nesta vida, parece que ele está na tranquilidade, mas na outra vida ele entra na agitação e no tormento do inferno.
[4] Por esse modo, pode-se saber qual é o estado do homem quanto ao seu racional e quanto ao seu natural; o homem não pode, pois, chegar à bem-aventurança e à felicidade senão pela conformidade do natural com o racional e pela conjunção de um com o outro, o que se faz unicamente por meio da caridade, e esta vem unicamente do Senhor.