. ‘E ela [estava] atrás dele’; que signifique perto do bem no qual estava então o Racional, e separado d’Ele tanto quanto havia de humano n’Ele, é o que se vê no fato de se dizer da porta, onde estava Sarah, que ela estava atrás dele. Estar atrás d’Ele significa não estar conjunto, mas voltar-lhe as costas; o que está separado de alguém é representado por uma sorte de rejeição como para trás das costas, assim como se pode ver representativos na outra vida de que se falou por experiência (n. 1393, 1875). Isso é agora expresso por estas palavras: “a porta, onde estava Sarah, estava atrás dele”. [2] Eis por que o vero racional puramente humano, que então estava no Senhor, foi separado de junto d’Ele quando Ele Se conjuntou com o Divino: O vero racional humano não compreende as coisas Divinas, porque elas estão acima da esfera de seu entendimento. Com efeito, esse vero comunica com os conhecimentos que estão no homem natural; e quanto mais ele considera por meio deles as coisas que estão acima dele, tanto mais ele as não reconhece, porque esse vero está nas aparências, das quais ele não pode se desprender; e as aparências são coisas nascidas dos sensuais que induzem a crer que as próprias coisas Divinas são tais quais as aparências, quando é certo que elas são isentas de quaisquer aparências. Quando essas coisas Divinas são referidas, esse vero racional não pode de modo algum crer, porque ele não as pode compreender. [3] Como, por exemplo: Que não há outra vida no homem senão a que lhe vem do Senhor; a partir das aparências, o racional pensa que então ele não pode viver como por si mesmo, quando, entretanto, ele só começa a viver verdadeiramente quando percebe que ele vive pelo Senhor. [4] A partir das aparências, o racional pensa que o bem que ele faz é feito por ele, quando, de fato, nenhum bem vem dele, mas todo bem vem do Senhor. [5] A partir das aparências, o racional pensa que ele merece a salvação quando ele faz o bem, entretanto o homem nada pode por si mesmo, mas todo mérito pertence ao Senhor. [6] A partir das aparências, o homem pensa que, quando é desviado do mal e mantido pelo Senhor no bem, nele só há o bem, o justo e até o santo, quando o certo é que no homem só há o mal, o injusto e o profano. [7] A partir das aparências, o homem pensa, quando ele faz o bem pela caridade, que ele o faz pelo voluntário que está nele, quando a verdade é que não é pelo seu voluntário, mas pelo intelectual, no qual foi implantada a caridade. [8] A partir das aparências, o homem pensa que não pode existir glória sem a glória do mundo, quando o certo é que não há na glória do céu a mínima coisa da glória do mundo. [9] A partir das aparências, o homem pensa que ninguém pode amar o próximo mais do que a si próprio, mas que todo amor começa por si, quando a verdade é que não há coisa alguma do amor de si no amor celeste. [10] A partir das aparências, o homem pensa que não pode existir luz senão a que provém da luz do mundo, quando é certo que não há nos céus a mínima parcela da luz do mundo e, todavia, a luz lá é tão grande que ela ultrapassa mil vezes a luz do meio-dia do nosso mundo. [11] A partir das aparências, o homem pensa que o Senhor não pode resplandecer como sol perante todo o céu, quando a verdade é que toda luz do céu procede d’Ele. [12] A partir das aparências, o homem não pode compreender que haja progressões [ou caminhadas] na outra vida, quando é certo que os espíritos e os anjos se veem andar, por exemplo, em seus aposentos, debaixo de seus pórticos em seus jardins, absolutamente como os homens nas terras; o homem pode menos ainda compreender quando se lhe diz que essas progressões são mudanças de estado, que se manifestam assim. [13] A partir das aparências, o homem não pode também compreender que os espíritos e os anjos, sendo invisíveis aos olhos, possam ser vistos, nem que possam conversar com o homem, quando é certo que eles se apresentam diante da vista interna, ou do espírito, de um modo mais manifesto do que um homem se apresenta a outro homem na terra, e os seus discursos são do mesmo modo ouvidos mais claramente. Há, além disso, milhares de verdades semelhantes que o racional do homem não pode de modo algum crer por sua luz nascida de seus sentidos e obscurecida por eles. Mais ainda, nas próprias coisas naturais o racional é cego; assim, ele não pode compreender como os que habitam o ponto diametralmente oposto do globo podem ficar sobre os pés e andar. O mesmo sucede com muitas outras verdades naturais, o que não deve, pois, suceder com as coisas espirituais e celestes que estão muito acima das naturais? [14] Por ser tal o racional humano, aqui se diz desse racional que ele foi separado quando o Senhor foi unido ao Divino na Percepção Divina, o que é significado por isso, que Sarah, representando aqui esse vero racional, estava à porta da tenda, e que essa porta estava atrás dele.