. ‘Por isso mandará aos seus filhos e à sua casa após si, e guardarão o caminho de JEHOVAH para fazer justiça e juízo’; que signifique que é do Senhor que procede toda doutrina da caridade e da fé, pode-se ver pela significação das palavras ‘filho’, ‘casa’, ‘caminho’, ‘justiça’ e ‘juízo’, que em suma, ou em um só sentido reunido, significam toda a doutrina da caridade e da fé; porque os ‘filhos’ significam todos que estão nos veros; a ‘casa’, todos que estão nos bens; o ‘caminho’, a doutrina pela qual eles são instruídos, doutrina que, relativamente ao bem, é significada pela ‘justiça’, e, relativamente ao vero, pelo ‘juízo’. A doutrina sobre o bem é a doutrina da caridade, e a doutrina sobre o vero é a doutrina da fé. [2] Em geral, só há uma doutrina, a saber, a doutrina da caridade, porque tudo que pertence à fé, como se disse (n. 2228), tem em vista a caridade. Entre a caridade e a fé não há outra diferença senão a que existe entre querer o bem e pensar o bem; quem quer o bem pensa também o bem, consequentemente, é a diferença que existe entre a vontade e o entendimento. Os que refletem sabem que uma coisa é a vontade e outra é o entendimento; é também o que, no mundo erudito, é conhecido e aparece manifestamente com os que querem maldosamente e que, entretanto, pelo pensamento, falam com bondade. Por esse modo, cada um deve ver claramente que uma coisa é a vontade e a outra é o entendimento, e que assim a mente humana se distingue em duas partes que não fazem um. O homem foi, contudo, criado de modo que essas duas partes constituíssem uma mente única, e de modo que não houvesse outra distinção senão a que existe — para falar por comparação — entre a chama e a luz que a chama produz. O amor ao Senhor e a caridade para com o próximo deviam ser como a chama, e toda percepção e todo pensamento, como a luz proveniente da chama, assim, o amor e a caridade deviam ser o todo da percepção e do pensamento, isto é, estar em tudo que, em geral e em particular, pertence à percepção e ao pensamento. A percepção, ou o pensamento sobre a qualidade do amor e da caridade, é o que se chama fé. [3] Como, porém, o gênero humano, tendo começado a querer o mal, a ter ódio para com o próximo e a exercer vinganças e crueldades, a ponto de essa parte da mente que se chama vontade ficar inteiramente destruída, os homens se puseram a distinguir entre a caridade e a fé e referiram à fé todos os doutrinais que pertenciam à sua religião, chamando-os por uma só palavra, fé; e, enfim, progressivamente foram até o ponto de dizerem que eles podiam ser salvos pela fé só, pela qual eles entendiam os seus doutrinais, contanto que somente eles os cressem, fosse qual fosse a sua vida. Assim, a caridade foi separada da fé, que então, falando por comparação, não é outra coisa senão uma sorte de luz sem chama, tal qual tem por costume ser a luz do Sol na estação do inverno, luz tão fria e glacial que os vegetais da terra definham e morrem; enquanto a fé procedente da caridade é, entretanto, como a luz na estação da primavera e do estio, luz pela qual tudo germina e floresce. [4] É também o que se pode saber no fato que, o amor e a caridade são uma chama celeste, e que a fé é uma luz espiritual que provém dessa chama. É mesmo assim que elas se apresentam à percepção e à vista na outra vida, porque lá o celeste do Senhor se manifesta diante dos anjos por um brilho inflamado como o Sol, e o espiritual do Senhor lá se manifesta pela luz que dele procede, e os anjos e os espíritos são por eles afetados quanto aos seus interiores segundo a vida do amor e da caridade com eles; daí as alegrias e as felicidades com as suas diversidades na outra vida. Por tudo que acaba de ser dito, pode-se ver o que é essa asserção: que a fé só salva.