Texto
. ‘Se [Eu] achar em Sodoma cinquenta justos no meio da cidade’; que signifique ‘se os veros estiverem cheios de bens’, é isso evidente pela significação de ‘cinquenta’, que é a plenitude; e pela significação de ‘meio da cidade’, que é interiormente no vero, ou no vero (de que se tratou acima, n. 2252), porque são as mesmas palavras. Pode-se crer que o homem não pode deixar de ser salvo se os veros estão cheios de bens, mas cumpre saber que no homem os veros são em muito pequeno número, e que, quando os há, eles não têm vida a não ser que os bens estejam neles; e que se os bens estão neles, o indivíduo é salvo, mas pela Misericórdia, porque os veros, como se disse, são em muito pequeno número no homem, e os bens que estão neles têm a sua qualidade segundo os veros e segundo a vida do homem.
[2] Os veros, considerados em si mesmos, não dão a vida, são os bens que dão. Os veros são somente recipientes da vida, isto é, do bem; por isso ninguém pode jamais dizer que pelos veros, ou, segundo a linguagem ordinária, pela fé só, ele possa ser salvo se o bem não estiver nos veros que pertencem à fé. O bem que deverá estar nesses veros é o bem da caridade; por conseguinte, a fé mesma, no sentido interno, não é outra senão a caridade, como se mostrou (n. 2231). Quanto ao que se diz, que o reconhecimento do vero é a fé que salva, deve-se saber que entre aqueles que vivem nas coisas contrárias à caridade, nunca pode haver reconhecimento, mas há uma sorte de persuasão, a qual está adjunta a vida do amor de si e do mundo. Assim, nesse reconhecimento não há a vida da fé, que é a da caridade. Os indivíduos mais perversos, impulsionados pelo amor de si e do mundo, ou pelo desejo de brilhar acima de outros em inteligência e sabedoria, como se diz, e de adquirir assim honras, reputação e riquezas, podem apoderar-se dos veros da fé e confirmá-los por muitos meios, mas a verdade é que neles esses veros são mortos.
[3] A vida do vero, assim, a vida da fé, vem unicamente do Senhor, Que é a Vida mesma; a vida do Senhor é a misericórdia que pertence ao amor para com o gênero humano. Não podem ter nada da vida do Senhor aqueles que, embora professem os veros da fé, desprezam os outros comparando-os a si próprios, e que, quando se toca em sua vida de amor de si e do mundo, odeiam o próximo e sentem prazer quando ele perde as suas riquezas, a sua honra, reputação e vida. Eis o que se passa a respeito dos veros da fé: é que por meio deles o homem é regenerado, porque eles são os vasos mesmos recipientes do bem. Tal quais são, portanto, os veros, tal quais são os bens nos veros, tal qual é a conjunção e, portanto, tal qual é a faculdade que têm os veros de serem aperfeiçoados na outra vida, assim é o estado de bem-aventurança e de felicidade depois da morte.