ac 2280

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Talvez se encontrem ali vinte’; que signifique, ‘se não houver algum combate, mas que haja, entretanto, o bem’, é o que se vê pela significação de ‘vinte’. Como todos os números que são mencionados na Palavra significam coisas e estados, como antes se disse e se mostrou (vide n. 2252), o mesmo acontece com ‘vinte’; e a significação desse número pode tornar-se evidente pelo fato de ele derivar de duas vezes dez. Na Palavra, ‘dez’, como também os ‘dízimos’, significam as relíquias, pelas quais é significado todo o bem e vero que o Senhor insinua no homem desde a infância até sua última idade. A este respeito se falará no versículo seguinte. Duas vezes dez ou dois dízimos, isto é, vinte, significam semelhantemente, mas em um grau superior, a saber, o bem.
[2] Três gêneros de bens são significados por meio das relíquias, a saber, ‘os bens da infância’, ‘os bens da ignorância’ e ‘os bens da inteligência’. Os bens da infância são os que são insinuados no homem desde o seu primeiro nascimento até a idade em que ele começa a ser instruído e a saber alguma coisa; os bens da ignorância são insinuados quando ele se instruí e começa a saber alguma coisa; os bens da inteligência são insinuados quando ele pode refletir sobre o que é o bem e sobre o que é o vero. O bem da infância existe desde a infância do homem até o décimo ano de sua idade; o bem da ignorância, desde essa idade até o vigésimo ano; a partir desse ano o homem começa a se tornar racional e a ter a faculdade de refletir sobre o bem e o vero e a adquirir para si o bem da inteligência.
[3] É o bem da ignorância que é significado por vinte, porque os que estão no bem da ignorância não entram em tentação, porque ninguém é tentado antes de poder refletir e perceber, a seu modo, o que é o bem e o que é o vero. Nos dois versículos precedentes, tratou-se dos que não estão nas tentações e que, contudo, têm o bem.
[4] Como vinte significa os que têm esse bem que se chama o bem da ignorância, é por isso que todos que saíram do Egito foram recenseados “desde o filho de vinte anos e acima” e, assim como é dito, “todo homem saindo para o exército”, o que designava os que não estavam mais no bem da ignorância, e de quem se fala em Números (1:20, 24, 26, 28, 30, 32, 34, 38, 40, 42, 45; 26:4). É também por isso que todos que estavam acima de vinte anos morreram no deserto (Nm. 32:10, 11), porque o mal pôde lhes ser imputado e porque representavam os que sucumbem nas tentações. É ainda por isso que a estimação do filho macho, desde o filho de cinco anos até o filho de vinte anos foi fixada a vinte ciclos (Lv. 27:5), e a outra estimação do filho de vinte anos a sessenta era fixada a cinquenta ciclos (Ibid. vers. 3).
[5] É este o estado das coisas em relação a esses bens, a saber, dos bens da infância, da ignorância e da inteligência. O ‘bem da inteligência’ é o melhor, porque ele é o bem da sabedoria. O bem que precede, a saber, o bem da ignorância, é um bem é verdade, mas por encerrar pouca inteligência não pode ser chamado bem da sabedoria, mas é unicamente um plano para poder vir a sê-lo. As cognições do bem e do vero fazem com que o homem tenha sabedoria como homem. A infância mesma, pela qual é significada a inocência, pertence não à infância, mas a sabedoria, como se poderá ver melhor pelo que será dito no fim deste capítulo sobre as crianças na outra vida.
[6] Neste versículo, como se disse, por ‘vinte’ não é significado outro bem senão o bem da ignorância. Desse bem se diz estar não só com os que estão abaixo de vinte anos, como ainda com todos que estão no bem da caridade e, ao mesmo tempo, na ignorância do vero, como estão aqueles que, dentro da igreja, estão nos bens da caridade e ignoram, por uma causa qualquer, o que é o vero da fé, como a maior parte dos que têm santos pensamentos sobre Deus e bons pensamentos sobre o próximo, e como são também todos que, fora da igreja, embora não estejam nos veros da fé, contudo, têm, pelo fato de estarem no bem, a faculdade de receber os veros da fé na outra vida do mesmo modo que as crianças, porque o seu intelectual ainda não foi infectado pelos princípios do falso, e o seu voluntário não se confirmou, por conseguinte, na vida do mal, porque eles ignoram o que é o falso e o que é o mal. E a vida da caridade tem isso de particular, que o falso e o mal da ignorância podem facilmente ser voltados ao vero e ao bem. Não sucede o mesmo com os que se confirmaram nos opostos do vero e viveram, ao mesmo tempo, nos opostos do bem.
[7] Em outras considerações, os dois dízimos, na Palavra, significam o bem, tanto celeste como espiritual. O bem celeste, assim como o espiritual que dele resulta, é significado pelos dois dízimos de que cada pão da proposição e das faces era composto (Lv. 24:5), e o bem espiritual pelos dois dízimos do bolo sobre o sacrifício do carneiro (Nm 15:6; 28:12, 20, 28; 29:3, 9, 14). Pela Divina Misericórdia do Senhor, se falará a respeito em outro lugar.

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