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Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Talvez se encontrem ali dez’; que signifique, ‘se, entretanto, as relíquias ali estivessem’, é o que se vê pela significação do número ‘dez’, que são as relíquias, assim como se viu na Primeira Parte (n. 576, 1738). Já em muitos lugares, por exemplo, n. 468, 530 560, 561, 661, 1050, 1738, 1906, foi demonstrado e explicado o que são as ‘relíquias’, a saber, que é todo bem e todo vero no homem mantidos encerrados e ocultos nas suas duas memórias e em sua vida.
[2] Sabe-se que não há absolutamente bem nem vero senão pelo Senhor, e que o bem e o vero influem continuamente do Senhor no homem, mas que eles são recebidos diferentemente, e isto de fato segundo a vida do mal e segundo os princípios do falso nos quais o homem se confirmou. É esta vida do mal e esses princípios do falso que extinguem, ou sufocam, ou pervertem os bens e os veros que influem continuamente do Senhor. Por isso, para que os bens não sejam misturados com os males, e os veros com os falsos, porque se fossem misturados o homem pereceria pela eternidade, o Senhor os separa, e os bens e os veros que o homem recebeu, Ele os encerra em seu homem interior, de onde o Senhor não permite jamais que eles saiam enquanto ele está no mal e no falso, mas somente o permite quando ele se acha em algum estado de santidade, ou em alguma ansiedade, ou em doenças, e em outros estados semelhantes. O que o Senhor assim escondeu no homem é o que se chamam as relíquias, que são mencionadas muitas vezes na Palavra, mas ninguém ainda soube o que elas significaram.
[3] O homem frui da bem-aventurança e da felicidade, na outra vida, de acordo com a qualidade e a quantidade das relíquias, isto é, do bem e do vero nele, porque elas foram ocultadas, como se disse, em seu interior, e se mostram quando o homem deixou as coisas corporais e mundanas. Só o Senhor é quem conhece a qualidade e a quantidade das relíquias do homem, o homem não o pode jamais saber, porque hoje o homem é tal, que ele pode fingir o bem quando não há entretanto dentro dele senão o mal. Além disso, um homem pode mostrar-se como mal, quando na verdade há dentro dele o bem. Por isso nunca é permitido ao homem julgar a respeito de um outro qual ele é quanto à sua vida espiritual, porque como se disse, só o Senhor o sabe; mas é permitido a cada um julgar a respeito de um outro qual ele é quanto à vida moral e civil, porque isso interessa a sociedade.
[4] Muito comumente, sucede que os que formaram consigo uma opinião sobre qualquer vero da fé julguem, em relação aos outros, que esses não podem ser salvos se não têm a mesma crença que eles — coisa que, entretanto, o Senhor proibiu (Mt. 7:1, 2) — quando, todavia, numerosas experiências me fizeram saber que de toda religião se é salvo, contanto que por uma vida de caridade tenham sido recebidas as relíquias do bem e do vero aparente. Eis o que se entende por estas palavras: “se fossem encontrados dez, eles não seriam destruídos por causa desses dez”, o que significa que se houvesse relíquias eles seriam salvos.
[5] A vida da caridade consiste em ter bons pensamentos a respeito de outrem, em lhe querer bem e em perceber em si mesmo alegria de que os outros sejam salvos também. Os que querem, porém, que somente sejam salvos aqueles que creem como eles, esses não têm a vida da caridade; e os que se indignam de que suceda de outro modo, esses ainda menos. Pode-se ver isso por este único fato, que há mais salvos dentre os gentios do que dentre os cristãos. Com efeito, aqueles que, dentre os gentios, pensaram bem do próximo e lhe quiseram bem, recebem, melhor do que os que são chamados cristãos, os veros da fé na outra vida e, mais do que os cristãos, reconhecem o Senhor, porque os anjos não têm maior prazer nem maior felicidade do que instruir aqueles que da terra entram na outra vida.

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